PM de SP: mata-se para se aposentar, mata-se para ser promovido

Brutalidade e crimes viram atalhos para subir o obter benefícios na corporação. O recado para a sociedade é o estrago devastador da impunidade, e a vergonha feudal e corporativista do órgão

O ponto de partida desta coluna nasce de um comentário simples, devastador e claro, feito por uma amiga aqui do Instagram, a Patricia Boscatto. “Triste realidade brasileira. Um se aposenta depois de assassinar a mulher e a outra tem uma promoção após matar uma cidadã sem justa causa e por cima ainda, mentindo.” A frase não é apenas indignação, é diagnóstico. Em poucas linhas, ela expõe uma inversão moral que deveria constranger qualquer sociedade minimamente comprometida com a vida: a violência não como ruptura, mas como trampolim.

Quando uma instituição premia, direta ou indiretamente, o ato extremo, ela desloca o limite do proibido. O que deveria provocar repulsa passa a ser absorvido como parte do jogo. O sujeito não encontra barreira clara, encontra brechas. E, nessas brechas, a culpa perde força, porque o próprio ambiente oferece uma espécie de absolvição antecipada. O resultado é perverso: a violência deixa de ser exceção e começa a se insinuar como possibilidade funcional, quase estratégica.

Não é um acidente isolado. Estados que falham em punir adequadamente seus agentes acabam criando incentivos silenciosos. Não é preciso dizer “faça”; basta não responsabilizar. Quando um militar comete feminicídio e se aposenta com salário integral, e quando uma agente em estágio mata uma civil e é efetivada, o recado que escapa dos gabinetes é brutal: o erro fatal não interrompe a carreira: pode até consolidá-la. Isso corrói a confiança pública e reforça um corporativismo que se protege mais do que protege o cidadão.

Acho até que o impacto é ainda mais amplo. A sociedade observa, registra e aprende. Cada decisão institucional molda comportamentos coletivos, alimenta descrença e naturaliza o absurdo. A frase que surgiu naquele comentário e que reverbera como título involuntário desta coluna não é exagero retórico, é uma pedagogia perversa: mata-se para se aposentar, mata-se para ser efetivado. Quando a vida perde valor diante da engrenagem do poder, o que se perde junto é a própria ideia de justiça. Os últimos movimentos da PM de São Paulo envergonham a nação. E eu não falo apenas desses dois casos. Infelizmente.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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