Uma menina que engravida após uma violência não precisa de senadores nojentos usando seu corpo como palanque moral
Em uma votação que durou apenas um minuto e quarenta e dois segundos, o Senado decidiu suspender uma resolução que reconhecia algo elementar: a gravidez na infância representa risco físico, psicológico e social para meninas submetidas a uma situação extrema. A rapidez da decisão diz muito. Quando um tema tão grave é tratado sem debate aprofundado, a mensagem transmitida é que a vida das crianças importa menos do que a necessidade de produzir um gesto político para determinados grupos de pressão. Fiquei com muito nojo assistindo ao resultado.
O mais impressionante é que muitos dos mesmos parlamentares que se apresentam como defensores da infância desaparecem quando o assunto é combater a violência sexual, fortalecer conselhos tutelares, ampliar a proteção social ou enfrentar a impunidade dos agressores. A criança interessa enquanto símbolo. Quando surge a necessidade de protegê-la na prática, ela deixa de ser prioridade. O discurso é pró-infância; a consequência é contra a criança real.
Toda sociedade que transforma sofrimento em bandeira política corre o risco de perder sua humanidade. Uma menina que engravida após uma violência não precisa de senadores usando seu corpo como palanque moral. Precisa de acolhimento, proteção e assistência. O Estado existe para reduzir danos e proteger vulneráveis, não para impor castigos em nome de convicções ideológicas que serão suportadas por quem não participou da decisão.
O que ocorreu no Senado não foi uma demonstração de compromisso com a vida. Foi uma demonstração de poder sobre vidas que possuem pouca capacidade de defesa. A política, quando abandona a realidade e passa a legislar para agradar plateias morais, deixa de ser instrumento de proteção coletiva e se transforma em mecanismo de crueldade institucional. E não há nada de conservador em sacrificar crianças para preservar discursos. Há apenas a velha tradição de exigir que os mais vulneráveis paguem a conta das convicções dos mais poderosos.
