Agora, toda investigação vira complô e o alvo já não é o adversário político: é a própria credibilidade das instituições. Nunes perseguido pela própria Polícia Civil de Tarcísio não fecha a conta
É preocupante facilidade com que Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, recorre ao discurso da perseguição sempre que uma investigação bate à porta. Durante anos, assistimos a políticos desqualificarem operações da Polícia Federal, promotores, procuradores e juízes. Agora, Ricardo Nunes consegue produzir uma inovação curiosa no repertório nacional: sugerir perseguição política em uma investigação conduzida pela Polícia Civil do próprio Estado governado por seus aliados. A pergunta é inevitável: se há perseguição, quem estaria perseguindo quem? A polícia de Tarcísio estaria conspirando contra o prefeito da maior cidade do país, seu aliado político?
A lógica desse argumento não resiste a cinco minutos de reflexão. A Polícia Civil não executa mandados porque acordou de mau humor ou porque decidiu participar de disputas eleitorais. Mandados de busca e apreensão dependem de investigação, elementos apresentados à Justiça e autorização judicial. Isso não significa que os investigados sejam culpados. Significa apenas que existem fatos considerados suficientemente relevantes para serem apurados. Em uma democracia madura, investigação não é condenação. Mas também não pode ser transformada em prova automática de perseguição.
Mais grave ainda é o efeito corrosivo desse discurso de Nunes. Quando uma autoridade pública sugere que qualquer apuração é motivada por interesses ocultos, ela não está apenas defendendo um aliado ou protegendo sua gestão. Está ensinando a população a desconfiar das instituições encarregadas de fiscalizar o uso do dinheiro público. É uma estratégia conhecida: em vez de responder às perguntas, questiona-se quem faz as perguntas. Em vez de esclarecer os fatos, tenta-se deslocar o debate para uma narrativa de vitimização política.
O Brasil já pagou caro demais pela cultura segundo a qual investigações só são legítimas quando atingem adversários. Quando alcançam aliados, passam a ser perseguição; quando alcançam inimigos, viram heroísmo institucional. Essa seletividade moral é um veneno para a democracia. Se há suspeitas, elas devem ser investigadas. Se não houver irregularidades, que os envolvidos sejam absolvidos e tenham seus nomes preservados. Mas transformar a Polícia Civil em instrumento de perseguição justamente quando ela investiga fatos ligados à própria administração é uma tese que desafia não apenas a coerência política, mas também a inteligência do cidadão.
