Soberania sob tutela?

A recorrente aposta da família Bolsonaro em pressões internacionais me força a retornar no assunto sobre patriotismo, lealdade nacional e os limites da interferência dos EUA no Brasil

É uma contradição difícil de ignorar, na minha opinião, na trajetória da família Bolsonaro. Durante anos, o discurso político bolsonarista foi construído sobre palavras como soberania, patriotismo, independência nacional e Brasil acima de todos. Mas, na prática, diversos episódios passaram a ser associados justamente à busca de apoio internacional para pressionar instituições brasileiras. O caso mais recente envolve a atuação de Flávio e Eduardo Bolsonaro junto a autoridades americanas em meio a disputas políticas e judiciais travadas dentro do próprio país, ampliando um debate que ultrapassa partidos e alcança um tema sensível para qualquer democracia: até onde vai a cooperação internacional e onde começa a tentativa de ingerência estrangeira?

As notícias envolvendo reuniões, articulações políticas em Washington e pedidos por sanções contra autoridades brasileiras colocaram a família Bolsonaro no centro dessa discussão. Investigações abertas no Brasil passaram a analisar justamente a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, após declarações e movimentações que foram interpretadas por setores políticos e jurídicos como tentativas de pressionar instituições nacionais através de mecanismos externos. Ao mesmo tempo, aliados do grupo celebraram iniciativas americanas vistas por críticos como instrumentos de constrangimento político contra autoridades brasileiras.

O ponto central da crítica não está necessariamente na existência de relações internacionais e ninguém precisa me ensinar algo comum em qualquer democracia, mas na natureza dessas articulações. A família Bolsonaro passou a defender tarifas, sanções e medidas externas capazes de gerar impactos econômicos, diplomáticos ou institucionais dentro do próprio país. E aí, deixo uma pergunta inevitável: qual é o limite entre defender uma causa política e instrumentalizar potências estrangeiras para interferir em conflitos internos? Flávio tenta, mesmo, é uma ingerência direta dos EUA nas eleições brasileiras. E ele deveria ser cassado por isso.

E toda essa controvérsia ultrapassa o destino político de qualquer sobrenome. Trata-se de uma discussão sobre usar a maior potência bélica do mundo para ameaçar seu próprio país e autoridades. Em qualquer espectro ideológico, a ideia de que disputas internas devam ser resolvidas por instituições brasileiras sempre foi um dos pilares do Estado nacional moderno. É justamente essa percepção que alimenta as críticas dirigidas à estratégia adotada por integrantes da família Bolsonaro: a de que, ao buscar pressão externa para influenciar decisões domésticas, acabam produzindo uma imagem que seus adversários resumem de forma dura e direta: um grupo político disposto a internacionalizar conflitos nacionais em troca de vantagens na arena interna. Jogo mais baixo, não existe.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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