Dinheiro sujo para advogado de Eduardo continua sem explicações

Quinze dias depois, o dinheiro sujo de Vorcaro ainda permanece sem recibos, sem contratos e sem explicações detalhadas. Que a indignação não perca prazo de validade com a Copa, antes da transparência aparecer

Quinze dias se passaram e o dinheiro continua sendo o personagem mais misterioso da história. Sabe-se que houve movimentação, sabe-se quem recebeu, sabe-se quem orbitava politicamente a operação, mas os documentos prometidos parecem ter embarcado numa longa viagem espiritual rumo ao além da burocracia nacional. No país do print, do PIX e da prestação de contas instantânea, chama atenção a velocidade com que certas comprovações desaparecem atrás de cortinas patrióticas e discursos inflamados sobre perseguição.

O mais curioso é o comportamento psicológico coletivo que cerca casos assim. Quando a dúvida envolve adversários políticos, exige-se CPF, RG, extrato bancário, imposto pago, DNA e até mapa astral. Quando a suspeita ronda os próprios aliados, instala-se uma espécie de meditação cívica. O cidadão que antes investigava até cupom fiscal de padaria passa a acreditar profundamente no poder da fé documental invisível. “Os papéis existem”, juram. Só ninguém vê. É quase uma modalidade contemporânea de milagre administrativo.

Na prática política, o silêncio prolongado nunca é neutro. Ele produz desgaste, alimenta especulações e cria exatamente o ambiente que assessorias profissionais tentam evitar. Porque se tudo estava formalmente registrado, contratualmente protegido e juridicamente organizado, a lógica seria simples: mostra-se o caminho do dinheiro, apresenta-se a finalidade dos recursos, esclarece-se quem autorizou, quem recebeu e por quê. O problema é que, quando o relógio anda mais rápido que a transparência, a narrativa começa a envelhecer antes mesmo da documentação nascer.

Enquanto isso, o país acompanha mais um capítulo daquela velha tradição nacional em que o dinheiro sempre faz turismo por lugares muito interessantes, mas raramente deixa cartão-postal. E o brasileiro, já traumatizado por décadas de escândalos reciclados, ainda procura o famoso botão de copiar os comprovantes que aparentemente ninguém consegue encontrar, começa a perceber que por aqui certas explicações têm o estranho hábito de entrar em recesso justamente quando deveriam comparecer ao expediente.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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