Declaração de Lula sobre Flávio Bolsonaro reabre um debate: afinal, por que parte da opinião pública associa o sobrenome Bolsonaro ao universo das milícias cariocas?
A frase de Lula foi dura, provocativa e calculada para produzir exatamente o que produziu: barulho. Ao dizer que, se fossem pedir intervenção para prender milicianos, “teriam ficado presos por lá”, o presidente cutucou uma ferida política que acompanha o bolsonarismo há anos. Não surgiu do nada. A associação feita por adversários políticos e parte da sociedade vem de episódios antigos, relações pessoais controversas, homenagens legislativas e personagens que orbitavam o mesmo ecossistema político do Rio de Janeiro, aquele subterrâneo onde polícia, poder territorial, negócios clandestinos e política muitas vezes frequentam o mesmo elevador social.
O caso mais lembrado envolve Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro e amigo de longa data da família. A partir daí, vieram à tona conexões com familiares de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como liderança do Escritório do Crime. Mãe e ex-esposa de Adriano chegaram a trabalhar no gabinete de Flávio. Politicamente, isso virou um desastre permanente, pois no imaginário popular brasileiro, especialmente no Rio, proximidade não precisa de sentença para produzir desgaste. Basta o álbum de fotografias.
Existe ainda um elemento psicológico muito brasileiro nessa história: a construção do personagem do “combatente da criminalidade” que acaba sendo perseguido justamente pelas perguntas sobre quem caminhava ao seu redor. O discurso da ordem absoluta entra em curto-circuito quando figuras ligadas ao universo paramilitar aparecem circulando nos bastidores do poder. E aí nasce a ironia cruel da política: quanto mais se grita contra o crime organizado, maior passa a ser a obrigação pública de explicar qualquer coincidência desconfortável com ele.
Do ponto de vista político, Lula sabe exatamente o peso dessa associação no debate público. Não é apenas uma acusação direta, mas a lembrança de um fantasma que acompanha a família Bolsonaro há anos e que nunca será enterrada na percepção coletiva. No Rio de Janeiro, milícia não é mais apenas um tema policial. Virou linguagem de poder, estética eleitoral e método de influência territorial. E toda vez que o assunto retorna ao noticiário, o silêncio seletivo, as respostas incompletas e a indignação performática acabam fazendo aquilo que nenhuma oposição conseguiria fazer sozinha: manter o assunto vivo.
