Dia do Amigo, o afeto e a conveniência

O delicado ofício de reconhecer quem é, e quem apenas parece

O Dia do Amigo costuma vir embalado por fotografias sorridentes e declarações generosas, mas a data também convida a um exercício mais exigente: distinguir presença de interesse. Nem toda proximidade é vínculo, nem toda troca é encontro. Em tempos em que as relações se tornam facilmente atravessadas por utilidades (contatos, acessos, visibilidade), a amizade verdadeira se revela menos pelo que se diz em público e mais pelo que se sustenta no silêncio, longe das vitrines.

Amizade autêntica nasce onde o outro não é instrumento. Existe ali um reconhecimento que não tenta capturar, nem explorar, nem se beneficiar. É um espaço raro onde se pode existir sem cálculo. Já as relações movidas por interesse carregam uma tensão constante: há sempre algo a obter, uma expectativa velada, um retorno implícito. E isso, cedo ou tarde, cobra seu preço porque o afeto, quando condicionado, vira negociação.

Hoje, essas distorções se tornaram tão comuns… Vivemos em ambientes cada vez mais orientados por capital social, onde pessoas são frequentemente percebidas pelo que podem oferecer. Nesse cenário, a amizade corre o risco de ser confundida com estratégia. Mas é justamente aí que ela ganha valor: quando resiste a essa lógica e se afirma como um vínculo que não precisa de justificativa utilitária para existir. Amizade verdadeira não precisa ser vantajosa para ser legítima.

Dei muito com a cara até perceber que relações baseadas apenas em interesse são frágeis, instáveis e facilmente descartáveis, como alianças oportunistas que se desfazem ao primeiro conflito. Já as construídas sobre confiança e lealdade criam estabilidade, continuidade, memória carinhosa. No plano íntimo, não é diferente. Aprender a reconhecer quem permanece quando não há nada a oferecer talvez seja um dos maiores gestos de maturidade. Amizade não é sobre quem se aproxima: é sobre quem permanece quando não há benefício algum em ficar. É aí que muitos se desesperam.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

LEIA MAIS

PM de SP: mata-se para se aposentar, mata-se para ser promovido

A coragem que devolve à palavra o peso eterno da Igreja de Pedro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *