Assistimos a mais uma nojeira, aquele velho roteiro que insiste em repetir o mesmo voo de sempre.
No Brasil, até mala viaja com status VIP: não passa por raio-X, não enfrenta fila, não há espera no saguão. Enquanto o cidadão comum tira o cinto, o sapato e quase a dignidade para provar que não é uma ameaça, há bagagens que parecem carregar algo muito mais pesado: a velha e indecorosa intimidade entre poder e privilégio. Não é sobre cinco malas; é sobre o velho hábito de tratar o público como quintal privado, onde regras são sugestões e protocolos, meros figurantes.
A cena é quase cômica, se não fosse trágica: autoridades, avião particular, paraíso caribenho, paraísos fiscais, malas que ninguém pode saber o que tem dentro, nem o raio X. Um salvo-conduto invisível que dispensa inspeção. A justificativa? Sempre ela, polida, ensaiada, institucional: “cumprimos todos os protocolos”. No Brasil, essa frase virou uma espécie de abracadabra ético: pronuncia-se e pronto, a realidade deve se curvar. Elevadores sociais que sobem sem parar nos andares mais altos do poder.
O mais curioso é como esse tipo de episódio já não causa espanto, apenas um cansaço. A indignação, no país, virou artigo de luxo, cara demais para ser usada todos os dias. Aqui, com esse Congresso, o absurdo já perdeu o impacto e passou a ser rotina. E assim seguimos… Malas liberadas e consciências apreendidas, assistindo a uma podridão em que as malas mudam, mas os passageiros insiste em repetir o mesmo voo de sempre.
O que escapa ileso não são apenas as bagagens, mas uma cultura inteira de permissividade, onde a proximidade entre poder e conveniência é tratada como algo natural. A gente não sabe se o verdadeiro conteúdo dessas malas era dinheiro, mas temos a certeza que, propositalmente, não passaram pelo raio X. De certo, algo errado estava acontecendo, e aconteceu. E uma certeza nós podemos ter garantida: a de que, no Brasil, a corrupção não precisa se esconder. Ela embarca, decola e aterrissa com a tranquilidade de quem sabe que, no fim das contas, sempre haverá alguém para acenar da pista e dizer: “pode passar”, “decolagem liberada”.
