A pesquisa pode ser censurada, mas o eleitor impossível de silenciar

Decisões judiciais podem retirar números de circulação, mas não existe liminar capaz de suspender o voto que amadurece silenciosamente na cabeça do eleitor

A decisão do presidente do TSE, ministro Nunes Marques, de suspender a divulgação da pesquisa AtlasIntel que apontava queda de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial reacende um velho debate da democracia brasileira: qual é a fronteira entre a proteção da lisura eleitoral e a restrição à circulação de informações de interesse público? A medida foi tomada sob o argumento de que haveria indícios de comprometimento metodológico e possível indução dos entrevistados por meio do questionário utilizado pelo instituto.  

Na minha opinião, com vossa permissão, ministro, tem algo curioso aí. Quanto mais uma informação é retirada do espaço público, maior tende a ser a curiosidade social em torno dela. A tentativa de conter um dado frequentemente o transforma em objeto de desejo, debate e compartilhamento. O resultado é paradoxal: a interdição pode produzir exatamente o efeito contrário ao pretendido, ampliando a atenção sobre aquilo que se buscava reduzir. Não por acaso, a discussão deixou de ser apenas sobre os números da pesquisa e passou a ser sobre a própria suspensão.

Gente, pesquisas não criam realidades; elas tentam fotografá-las. Fotografias podem sair tremidas, mal enquadradas ou até equivocadas, mas NUNCA CENSURADAS. A democracia se alimenta da livre circulação de informações, inclusive para que institutos, partidos, analistas e cidadãos possam confrontar versões e questionar resultados. Quando o debate se desloca do mérito dos números para a proibição dos números, instala-se um ruído arbitrário, em pleno 2026, que frequentemente produz mais dúvidas do que esclarecimentos.  

O episódio deixa uma lição elementar: é possível suspender uma pesquisa. É possível retirar um levantamento do ar. É possível até impedir a republicação de determinados dados. O que não existe, em nenhuma democracia funcional, é a capacidade de interditar aquilo que realmente decide eleições: a percepção do eleitor. Números podem ser recolhidos das telas, mas votos continuam sendo depositados nas urnas. E para eles, felizmente, não foi inventada nenhuma liminar.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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