O golpe da falsa criança e o colapso do bom senso

A fraude é escandalosa, mas a verdadeira curiosidade do caso talvez seja outra: se adultos não percebem o que acontece dentro da própria casa, como sobrevivem da porta para fora?

A mulher de 37 anos que decidiu passar mais de um ano fingindo ser uma menina de 12 aparentemente encontrou a fórmula perfeita para um ano sabático sem boletos emocionais: comer, dormir, ganhar presentes, receber cuidados e ainda ser tratada como filha adotiva. É uma história que parece ter sido escrita por um roteirista que perdeu completamente o senso do ridículo. Mamadeira, chupeta, voz infantilizada, histórias mirabolantes e uma coleção de justificativas para explicar por que uma suposta criança já tinha cara de quem precisava declarar Imposto de Renda.

Claro que a principal responsável é a autora da fraude. Ninguém discute isso. O problema é que a narrativa não para nela. Em algum momento da leitura dos fatos, surge uma dúvida inevitável: que família é essa? Porque estamos falando de catorze meses de convivência diária. Não foram catorze horas. Não foi um fim de semana. Foi mais de um ano dividindo espaço, refeições, rotina e conversas sem que alguém percebesse que havia algo profundamente estranho naquela encenação.

A certa altura, a história deixa de ser apenas um caso policial e vira quase um estudo sobre a suspensão voluntária da realidade. Afinal, qualquer pessoa minimamente desconfiada faz perguntas. Onde estão os documentos? Onde estão os registros escolares? Onde estão os exames? Onde estão as autoridades responsáveis? Uma criança desaparecida não surge do nada na sala de uma casa como quem aparece em promoção de supermercado. O senso crítico não deveria entrar em férias junto com a lógica.

Existem golpes que funcionam pela sofisticação. Outros funcionam pela tecnologia. Este parece ter funcionado pela completa renúncia à desconfiança. A golpista certamente terá de responder por seus atos. Mas a família também deixa uma pergunta que talvez seja ainda mais intrigante do que a própria fraude: se alguém consegue passar um ano inteiro sem perceber o que acontece dentro da própria casa, como exatamente consegue avaliar o que acontece do lado de fora dela?

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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