Antes que a coluna seja acusada por Flávio de ameaça de morte, cabe esclarecer: o título é uma metáfora
Existe um princípio elementar da política: ninguém prospera eleitoralmente atacando hábitos que a população incorporou ao cotidiano. O Pix deixou de ser apenas uma ferramenta financeira para se transformar em infraestrutura social. Está na feira, no mercadinho, no ambulante, no pequeno empreendedor, na manicure, no motorista de aplicativo. Quando Eduardo Bolsonaro se coloca contra um mecanismo que simplificou a vida de milhões de brasileiros, não está enfrentando um governo. Está enfrentando uma prática social consolidada. E quem paga a conta dessa hostilidade não é apenas ele, mas todo o campo político que carrega o mesmo sobrenome.
Flávio Bolsonaro talvez ainda não tenha percebido que campanhas presidenciais são construídas sobre expansão de apoio, não sobre fidelização de nichos. A política real acontece no território da maioria silenciosa, não nas bolhas digitais onde aplausos são confundidos com votos. Ao transformar o Pix em alvo ideológico, Eduardo produz um efeito devastador: oferece ao eleitor comum a realidade nua e crua: a família Bolsonaro decidiu declarar guerra justamente ao instrumento que tornou sua vida financeira mais simples, rápida e barata. Cabe ressaltar: quando o pix passou a operar, Bolsonaro nem sabia o que significa. Isso foi provado durante uma entrevista. E tem um motivo: o Pix foi criado por técnicos do Banco Central de forma pragmática e desvinculada a qualquer governo.
Há ainda um componente revelador nessa escolha. Certos grupos políticos desenvolveram uma dificuldade crônica de reconhecer transformações que não nasceram sob sua própria tutela. Em vez de disputar a narrativa sobre avanços concretos, preferem negar a própria realidade que está diante dos olhos da população. O problema é que o eleitor não vive dentro de discursos. Vive dentro da experiência. E a experiência cotidiana ensina que o Pix funciona. Quando a experiência contradiz a narrativa, a narrativa perde.
Por isso o episódio não representa apenas um erro de comunicação. Representa um erro de leitura do país. Enquanto milhões de brasileiros utilizam o sistema diariamente sem qualquer conflito ideológico, parte da direita insiste em enxergar fantasmas onde a população vê utilidade. É exatamente nesse ponto que candidaturas começam a ser enterradas antes mesmo de nascer. Não por perseguição, não por conspiração, não por censura. Mas pela incapacidade de compreender que, numa democracia, desafiar o cotidiano da maioria costuma ser o caminho mais curto para a irrelevância eleitoral.
