A cômoda antessala da promessa e o caminho

Um bom coração não fica sentado, apenas anunciando que Cristo vai voltar em último ato, mas floresce, de verdade, enquanto caminha

Vejo um equívoco que, aos poucos, foi se infiltrando na experiência de fé de muitos: a ideia de que viver, com tudo que já se confirmou a partir da Bíblia, é apenas aguardar. Como se a existência fosse uma espécie de sala de espera espiritual, onde o tempo presente perde densidade diante da promessa futura. A esperança na volta de Cristo, que deveria acender responsabilidade e sentido, muitas vezes se transforma em suspensão da vida: uma fé que olha tanto para o céu que desaprende a tocar a terra.

No entanto, a própria narrativa bíblica insiste em outro ritmo: o de um Deus que caminha com as pessoas. Um Cristo que não apenas anuncia um Reino vindouro, mas que o inaugura nos gestos concretos, nas relações, no cuidado cotidiano. A encarnação, em sua profundidade teológica, não aponta para uma fuga do mundo, mas para sua dignificação. Reduzir a vida a um “limbo existencial” até a redenção final é ignorar que o Reino já se insinua, discretamente, em cada ato de amor, justiça e presença.

Esperar aquilo que não tem data nem hora deveria, paradoxalmente, nos lançar ainda mais intensamente no agora. Porque quem espera sem viver, na verdade, não espera, apenas adia. A verdadeira esperança cristã não é passiva; ela é ativa, criativa, comprometida. É no caminho que a fé se prova, se refina, se encarna. E essa ausência de prazo nos ensina a santidade do processo: viver bem não como preparação para algo maior, mas como parte essencial daquilo que já é sagrado.

Veja bem: não estou aqui querendo negar a promessa, mas compreendê-la em sua inteireza. A volta de Cristo não é um convite à inércia, mas um chamado à lucidez. Não é sobre abandonar o mundo, mas sobre habitá-lo com mais consciência, mais compaixão, mais verdade. Se há um encontro por vir, ele começa agora; no modo como escolhemos atravessar o tempo, honrar o caminho e reconhecer que, antes de chegar, é preciso aprender a viver.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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