O escândalo de um Deus que não nos obedece

Tão profundamente humano, que para ser humano como Jesus foi, só Deus

Meu Deus não corresponde às expectativas humanas mais básicas. Isso já foi um problema pra mim. Até entender que, se fôssemos nós os autores dessa história, provavelmente desenharíamos uma divindade que reafirmasse nossas certezas, que punisse nossos inimigos com a mesma intensidade que nos absolve, que se colocasse acima da dor, intocável. Mas o que surge na figura de Jesus rompe com essa lógica de forma quase incômoda: um Deus que serve, que se entrega, que não revida, que perdoa inclusive quem o fere. Não é o tipo de narrativa que conforta o ego humano, é o tipo que o confronta.

Na boa, gente… Pensa comigo: no fundo, o ser humano não cria aquilo que o desinstala tão profundamente. A gente inventa deuses à nossa imagem para nos proteger, para justificar nossas escolhas, para manter alguma sensação de controle sobre o caos. Tipo o Super Man. Mas um Deus que morre? Um Deus que abençoa tanto o justo quanto o injusto? Um Deus que recusa a vingança quando ela parece legítima? Isso não nasce da nossa lógica mais instintiva. Isso nos atravessa de fora para dentro, como uma proposta que não pedimos, mas que insiste em nos encontrar.

Eu sei… É foda! Um Deus assim desorganiza hierarquias, desmonta privilégios, questiona estruturas que se sustentam na exclusão. Ele não legitima o poder pelo domínio, mas pela entrega. E isso é profundamente incômodo em qualquer sociedade que ainda vive pela força, do mérito seletivo e da distinção entre quem merece e quem pode ser descartado. Não é à toa que essa mensagem, tantas vezes, foi suavizada, distorcida ou adaptada: torná-la mais aceitável é uma forma de torná-la menos transformadora.

E talvez seja exatamente por isso que essa figura continua atravessando séculos com a mesma potência. Porque ela não parece ter sido criada para agradar, mas para revelar. Revelar o quanto ainda estamos distantes dessa forma de existir e, ao mesmo tempo, o quanto somos chamados a nos aproximar dela. Um Deus assim não cabe na invenção humana, porque ele não confirma o que somos, ele nos convida, silenciosamente, a sermos mais.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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