O poder que se descola da realidade revela mais sobre a magistrada do que sobre qualquer outro tipo de brasileiro que tenha os pés fincados no chão
Foi uma vergonha nacional. Uma chacota com a cara do brasileiro. A desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará, afirmou publicamente que magistrados estariam enfrentando dificuldades financeiras após cortes de benefícios, os chamados “penduricalhos”, chegando a mencionar que a categoria poderia ser colocada no mesmo rol de trabalhadores em regime de escravidão. A declaração, que também incluiu relatos de colegas deixando de ir ao dentista por falta de recursos, não apenas causa estranhamento imediato como exige uma leitura mais cuidadosa do que está sendo dito e, principalmente, de onde isso está sendo dito. Merece nojo, merece repulsa.
Há falas que não apenas soam equivocadas; elas expõem um distanciamento tão profundo da realidade que chegam a constranger. Em um país onde milhões lutam diariamente para garantir o básico, evocar esse tipo de analogia não é apenas desproporcional, é safadeza mesmo. É um gesto de desconexão que revela o lugar de onde essa fala emerge. A tentativa de equiparar a perda de privilégios, com salário superior aos R$ 40 mil, a uma condição extrema de exploração, como o trabalho análogo á escravidão, é um tapa na cara, porque dilui o peso histórico e humano de uma palavra que carrega dor, violência e apagamento.
A fala também revela uma inversão inquietante de perspectiva. Ao se colocar como vítima de um cenário de escassez, mesmo diante de salários e benefícios muito acima da média nacional, desloca-se o eixo do debate público. Em vez de olhar para as urgências reais, como a má distribuição de renda, constrói-se uma narrativa onde a elite institucional aparece fragilizada. Esse movimento reorganiza a empatia social de forma distorcida, desviando o olhar de quem, de fato, enfrenta condições limite.
É o retrato de uma bolha que insiste em se manter intacta. Um espaço onde privilégios são tão naturalizados que sua redução passa a ser percebida como injustiça. Do lado de fora, o Brasil real segue existindo duro, desigual, urgente. E é justamente por isso que esse tipo de fala precisa ser confrontado com clareza: porque revela o quanto ainda falta para que certas vozes compreendam o país que deveriam servir. E o pior: elas representam a nossa Justiça. Infelizmente. Vergonhosamente.
