O privilégio de um estudante de Direito, branco, converteu para o Brasil inteiro como o sadismo racial e social é naturalizado nas mãos de indivíduos nefastos e cruéis
O que eu assisti foi a crueldade nua e crua de uma estrutura social que ainda produz sujeitos incapazes de reconhecer a humanidade do outro. Jovens de classe alta de Belém, estudantes de Direito, isto é, supostos futuros operadores da lei, transformam um corpo preto e vulnerável em objeto de experimento e riso. A cena não é apenas violenta; ela é pedagógica, no pior sentido: revela como a elite aprende, desde cedo, que há vidas descartáveis. A filmagem, o riso e a repetição do ato indicam não um impulso, mas uma performance: um teatro do poder onde o outro é reduzido a coisa.
É a falência da empatia como estrutura psíquica e a emergência de um gozo perverso. Não foi apenas crueldade gente… Foi satisfação em exercer domínio sobre quem está abaixo na hierarquia social. Esse tipo de gozo, descrito em tradições psicanalíticas como uma forma de prazer ligado à humilhação do outro, costuma florescer quando o sujeito é autorizado socialmente a não reconhecer limites. O “brincar” com o taser entre si, seguido da agressão e choques a um homem em situação de rua, revela a passagem do jogo narcísico para o ato de dominação real: quando o outro deixa de ser semelhante e passa a ser alvo.
É muito triste, vergonhoso e constrangedor, mas necessário confessar: o Brasil ainda é atravessado por uma lógica de herança escravocrata, em que corpos negros e pobres são historicamente desumanizados. Não é coincidência que a vítima seja um homem em situação de rua, negro, e os agressores, jovens brancos de classe alta. O Direito, que deveria ser instrumento de proteção, aparece aqui como ironia trágica: aqueles que estudam as normas são os primeiros a violar seus princípios mais básicos. Há, nisso, uma pedagogia da impunidade: a crença de que status social funciona como escudo moral e jurídico.
Não é “brincadeira”, não é “excesso juvenil”, não é “caso isolado”. É violência de classe, atravessada por raça, legitimada por uma cultura que ainda naturaliza o sofrimento dos invisíveis. A resposta institucional precisa ir além da punição individual; exige revisão profunda dos espaços de formação, inclusive universitários, e da forma como o privilégio é reproduzido sem crítica. Expulsá-los da universidade é dever. Enquanto jovens rirem ao dar choques em corpos vulneráveis, o país seguirá sendo, ele mesmo, uma máquina de produzir choques elétricos, sociais e morais.
