Alguns políticos boçais articularam usar o futebol como arma eleitoral. É mais uma radicalização que busca transformar paixão popular em instrumento podre de disputa ideológica
A convocação de Neymar voltou a escancarar um fenômeno que tem destruído o Brasil: a tentativa de transformar qualquer acontecimento popular em munição política. Após o anúncio da lista, setores organizados da extrema direita passaram a publicar vídeos com a frase “chupa Lula”, numa construção artificial que tenta vender a ideia de que existiria um esforço do governo federal para impedir a presença do jogador na Seleção Brasileira. Não há qualquer evidência disso. O objetivo parece ser outro: capturar emocionalmente o futebol para alimentar uma narrativa permanente de confronto eleitoreiro.
O problema ultrapassa Neymar ou qualquer governo. O futebol sempre funcionou como um dos raros espaços de identidade coletiva nacional, capaz de unir pessoas de diferentes classes, regiões e visões de mundo. Quando agentes políticos tentam sequestrar esse símbolo para criar inimigos imaginários, o resultado é corrosivo. A paixão esportiva deixa de ser encontro e vira trincheira. O torcedor passa a ser estimulado a enxergar o outro brasileiro não como adversário de debate, mas como ameaça moral a ser humilhada publicamente por ideologia política. A lógica deixa de ser a do esporte e passa a ser a da guerra emocional política permanente: dividir a seleção brasileira em nós ou eles.
Esse tipo de estratégia funciona porque explora impulsos muito primitivos da vida pública contemporânea: a necessidade de pertencimento, a fabricação de heróis e vilões simplificados e o prazer imediato da provocação. A política-espetáculo depende justamente disso: transformar fatos banais em combustível de engajamento. Não importa se a narrativa faz sentido racionalmente. O que importa é gerar identificação instantânea, viralização e sensação de combate. E a realidade vai sendo esmagada por slogans produzidos para alimentar discórdia interna no país de forma organizada ideológica.
O mais grave é que esse mecanismo ajuda a aprofundar uma polarização já adoecida no Brasil. Quando tudo vira disputa eleitoral, como futebol, música, tragédia, religião ou entretenimento, a sociedade perde sua capacidade de convivência mínima. O debate público se torna infantilizado, agressivo e incapaz de produzir qualquer ponte. Transformar a Seleção Brasileira em extensão de campanha política talvez renda curtidas e alcance nas redes por parte dos imbecis, mas cobra um preço alto: a destruição lenta de símbolos coletivos que deveriam pertencer ao país inteiro, e não a projetos políticos de poder.
