Numa república do ressentimento, o debate público deixou de buscar soluções e passou a alimentar paixões destrutivas
Sempre tomo café da manhã com um grande amigo que já mora no meu coração. Entre um gole e outro, nossas conversas invariavelmente sempre atingem uma teceira visão. Concordamos 50%, por hora discordamos outros 50%, mas quando o café chega no último gole, nossa terceira conclusão é sempre unânime e direta, quase um ritual: um olha para o outro e sentencia: “a política é sórdida”. Não porque a política seja, em sua essência, algo menor. Pelo contrário. Ela deveria ser a mais nobre das atividades humanas, o espaço onde diferenças são mediadas e interesses coletivos encontram caminhos comuns. O problema é que, no Brasil de hoje, a política deixou de ser uma ferramenta de construção para se transformar numa arena de destruição. Por vezes chegamos à conclusão que os adversários já não são pessoas que pensam diferente. É alguém que precisa ser aniquilado.
A degradação do debate público não acontece por acaso. Ela prospera porque alimenta sentimentos profundos que sempre existiram na sociedade: medo, frustração, ressentimento e desejo de pertencimento. Em tempos de incertezas sociais, torna-se mais fácil encontrar conforto em narrativas simplificadas do que enfrentar a complexidade dos problemas reais. Assim, líderes políticos, influenciadores e setores organizados, como parte da imprensa, descobriram que mobilizar indignação rende mais resultados do que apresentar propostas. O conflito virou produto. A raiva virou método. E a verdade, muitas vezes, virou detalhe.
O resultado é uma sociedade aprisionada em trincheiras emocionais. Cada grupo cria sua própria realidade, seus próprios heróis e seus próprios inimigos. A lógica democrática, baseada na negociação e no convencimento, é substituída pela lógica da torcida organizada. Não se avaliam mais ideias, projetos ou resultados. Avaliam-se identidades. Se a proposta vem do “meu lado”, é boa. Se vem do “outro lado”, é ruim. O pensamento crítico cede espaço à devoção cega. E quando a política se converte em religião secular, qualquer divergência passa a ser vista como heresia.
Talvez seja por isso que, entre um café e outro, meu amigo e eu sempre cheguemos à mesma conclusão. A sordidez da política brasileira não está apenas nos escândalos, nos acordos de bastidor ou nas disputas pelo poder. Ela está na normalização de uma cultura que transformou o ódio em linguagem cotidiana e a divisão em estratégia permanente. O país parece viver uma estranha dependência do conflito, como se precisasse dele para existir. Mas nenhuma democracia sobrevive indefinidamente quando a vitória importa mais do que a verdade e quando humilhar o adversário se torna mais importante do que melhorar a vida das pessoas. A política só voltará a ser grande quando deixar de explorar nossos piores instintos e voltar a convocar nossos melhores valores.
