Conversas reveladas entre Castro e Vorcaro expõem a promiscuidade obscena entre poder político, poder financeiro e a corrupção
É grotesco só de imaginar aquela ‘cara bonita’ do Castro, como um governador degustando vinhos avaliados em um milhão de dólares ao lado de um banqueiro que, pouco depois, receberia um aporte milionário vindo justamente da estrutura pública que deveria servir à população. Eu não estou falando de uma taça cara. Estamos vendo o retrato perfeito de uma elite política que já não faz questão alguma de esconder suas safadezas. O luxo privado virou aqui negociação política. A ostentação, método de convencimento. A proximidade, moeda.
Os prints das conversas divulgados hoje escancaram mais do que intimidade: Estado e interesse privado dissolvidas num brinde indecente. Não são os vinhos. O problema é o cheiro de um estado quebrado, desigual e traumatizado por décadas de escândalos. Enquanto servidores acumulam perdas, hospitais agonizam e a segurança pública continua sequestrada pela violência e pela precariedade, parte da elite dirigente parece viver no Jardim do Éden, anestesiada pela própria sensação de impunidade.
Uma liturgia de privilégios onde empresários bilionários e figuras do Estado compartilham taças enquanto o cidadão comum compartilha boletos, ônibus lotado e abandono institucional. E problema está no Bolsa Família. O que me revolta não é apenas a putaria. É a naturalidade com que ela acontece. O constrangimento oficialmente aposentado da vida pública brasileira.
Eu queria fazer uma crítica mais intransigente, mas a perda completa da vergonha me fez perder a vontade de olhar ainda mais isso. O Rio de Janeiro, que já foi laboratório de tantas tragédias políticas nacionais, volta a oferecer ao país uma imagem devastadora da promiscuidade entre dinheiro, influência e poder. Não há sofisticação possível num cenário em que a elite brinda ao luxo enquanto o estado sangra. O governador se deslumbrando com o banquete de luxo pago pelo banqueiro corrupto, e sempre quem paga a conta é a população. Nesse caso, os pensionistas e aposentados.
