Sinto, profundamente, que seguir Jesus Cristo virou algo diferente de imitá-lo. Não deveria sentir isso, mas sinto. Não queria sentir isso, mas sinto também
É curioso o Cristianismo contemporâneo: fala-se muito de Jesus, mas observa-se pouco de seus gestos. Seu nome é repetido, estampado, defendido, mas sua prática, que era simples, radical e transgressora, parece cada vez mais distante da vida real de quem o invoca. Talvez porque seguir Jesus Cristo nunca tenha sido sobre discurso, e sim sobre desconforto.
Jesus não era confortável. Ele não selecionava quem merecia amor, não condicionava acolhimento a comportamento exemplar, não transformava fé em espetáculo. Ao contrário, sentava-se com os rejeitados, tocava os intocáveis, e oferecia dignidade antes de qualquer correção. Hoje, no entanto, muitos dos que se dizem seus seguidores parecem mais preocupados em apontar falhas do que em estender a mão. Como se o julgamento tivesse se tornado mais importante que a compaixão.
Há uma inversão sutil e perigosa acontecendo. Quando paro para pensar, isso aumenta a minha depressão. E o remédio, talvez, seja também dividir. A fé, que deveria ser um exercício íntimo de transformação, virou muitas vezes uma vitrine pública de posicionamento. Não basta crer, é preciso mostrar que se está do “lado certo”. E nesse processo, Jesus Cristo deixa de ser referência de comportamento para se tornar argumento de autoridade. Ele é citado, mas nem sempre vivido.
Criamos, infelizmente, um Jesus à imagem de cada grupo. Um Jesus que valida opiniões, reforça crenças e, em alguns casos, até justifica exclusões. Mas o Cristo dos evangelhos era, acima de tudo, incômodo, porque atravessava fronteiras, quebrava regras sociais e confrontava justamente os que se achavam mais corretos. Segui-lo, portanto, não é confortável. Nunca foi.
A pergunta que me pegou nesse início de tarde não é teológica, é humana: estamos realmente dispostos a viver o que Jesus Cristo ensinou, ou apenas a defender o que nos convém em seu nome? Na boa, gente… Dizer “eu sigo Cristo” e, de fato, imitá-lo, existe um abismo. E talvez seja nesse espaço que a fé mais se perde… ou mais se revela. Triste…
