Em São Paulo, descobri, durante o cafézinho antropológico da padaria, uma espécie urbana que não vive no trânsito. Vive da buzina em dias de ruas calmas
Moro em São Paulo há alguns anos, mas certas cidades não se revelam na pressa. Elas se entregam nos intervalos, entre um café e outro, numa conversa comprida com um amigo, enquanto os olhos passeiam pela rua. Foi assim que identifiquei uma figura curiosa da fauna paulistana: o motorista domingueiro. Não é difícil reconhecê-lo. Durante a semana, tudo indica que ele deixa o carro na garagem. Mas, quando chega o domingo, sai ao volante como quem assume uma missão de Estado. E, curiosamente, escolhe justamente o dia em que a cidade respira tem o transito mais calmo.
O motorista domingueiro não parece dirigir contra os carros; dirige contra a própria semana. Ele acumulou estresse de segunda a sexta, viu todo mundo buzinar de segunda a sexta, Durante a semana, sempre que via o semáforo abrir e a buzina sair antes mesmo de o carro da frente perceber que o vermelho foi embora, ele ia absorvendo. Um ônibus muda de faixa e lá vem outro protesto absorvido de segunda a sexta. Alguém pede passagem? A resposta já estava preparada antes da pergunta: outra buzinada reparada de segunda a sexta. Sabemos que ele não dirige de segunda a sexta, justamente porque a irritação no transito de domingo é incompatível com o cenário pacato. O trânsito de domingo costuma ser quase uma gentileza urbana, mas o ‘motorista domingueiro’ o conduz como se estivesse preso na Marginal às seis da tarde de uma quarta-feira chuvosa. Não enfrenta congestionamentos naquele momento; enfrenta memórias.
Talvez seja esse o curioso mecanismo das grandes cidades. Há quem passe cinco dias da semana absorvendo a ansiedade alheia no banco do Uber, no ônibus, no metrô ou simplesmente olhando os relógios correrem mais depressa que a vida. Quando finalmente assume o volante, não dirige apenas um automóvel. Conduz também o peso dos atrasos, das cobranças, das filas e das pequenas frustrações acumuladas. A buzina deixa de servir para alertar e passa a funcionar como válvula de escape. O problema é que o som não descarrega a tensão; apenas a distribui entre desconhecidos.
Desde que aprendi a identificar essa espécie, confesso que o domingo ganhou um novo passatempo. Já não observo apenas os prédios ou as árvores que insistem em sobreviver entre o concreto. Observo as buzinas. E, quando escuto uma delas romper o silêncio sem motivo aparente, penso que talvez aquele motorista nem esteja com pressa de chegar a algum lugar. Talvez esteja apenas tentando fugir de uma semana inteira que resolveu pegar carona justamente no único dia em que São Paulo, por algumas horas, parece aceitar o convite para respirar.
