A indústria do cigarro já prometeu o colapso da mídia. Agora, dirigentes do futebol repetiram a mesma estratégia para defender a dependência das bets e foram destroçados pela opinião pública: “vexame”
Há um roteiro conhecido sempre que a sociedade decide impor limites a um mercado altamente lucrativo e socialmente nocivo. Primeiro, surge o discurso de que milhares de empregos desaparecerão. Depois, que um setor inteiro entrará em colapso. Foi assim quando a publicidade de cigarros foi banida da televisão brasileira. Representantes da indústria e setores beneficiados previram prejuízos irreversíveis para emissoras, eventos e patrocinados. O tempo mostrou o contrário: a TV não quebrou, o esporte não acabou, o mercado se reorganizou e a sociedade ganhou uma política pública que ajudou a reduzir a influência de um produto reconhecidamente nocivo. A história desmentiu o terrorismo econômico.
Agora, a mesma lógica ressurge modificada de defesa do futebol. Dirigentes afirmam que restringir ou proibir a publicidade das bets significaria “o fim do futebol brasileiro”. A frase tem força retórica, mas pouca consistência histórica. O futebol brasileiro existiu por mais de um século antes das casas de apostas dominarem as camisas, os estádios e as transmissões. Clubes conquistaram títulos mundiais, revelaram gerações de craques e construíram patrimônio muito antes de esse dinheiro entrar em circulação. O argumento do colapso absoluto é menos uma análise econômica do que uma tentativa de criar medo para impedir qualquer mudança.
Toda dependência financeira de um setor cuja atividade provoca impactos sociais relevantes precisa ser encarada como um problema, não como um destino inevitável. Quando uma instituição passa a afirmar que não consegue sobreviver sem recursos oriundos de um mercado associado ao endividamento, ao vício e à vulnerabilidade de milhões de brasileiros, ela não está revelando uma virtude administrativa. Está confessando uma fragilidade estrutural. O papel do Estado não é eternizar essa dependência, mas criar condições para que ela seja superada com responsabilidade, exatamente como ocorreu em outros momentos da história.
A chantagem econômica sempre tenta transformar interesses privados em interesse público. Ontem era o cigarro. Hoje são as bets. Amanhã será qualquer outro negócio que descubra que o medo rende mais do que os argumentos. Democracias não podem aceitar que políticas de proteção social sejam sequestradas pela ameaça de que um mercado irá acabar. Se um modelo de financiamento só sobrevive enquanto amplia um problema coletivo, talvez o que precise ser salvo não seja esse modelo, mas a própria capacidade da sociedade de dizer que nem todo lucro merece proteção.
