Xico Sá e o Jornalismo que não aceita o Brasil contado pelos poderosos

Um repórter formado na rua, um escritor que transformou a vida brasileira em narrativa e uma voz que segue enfrentando o esquecimento e a intolerância no debate público.

Xico Sá pertence a uma linhagem de JORNALISTAS, assim mesmo, em letras maiúsculas. JORNALISTAS que estudaram muito para aprender que o Brasil não cabe apenas nos palácios, nos gabinetes e nas versões oficiais dos donos do poder. Sua formação foi construída no jornalismo de rua, na observação dos personagens anônimos e também nos grandes acontecimentos nacionais. Ao cobrir o caso PC Farias, acompanhou um dos momentos mais delicados da República brasileira, quando a imprensa teve papel decisivo para revelar as relações entre dinheiro, influência e poder político. Mas sua importância não está apenas no arquivo das grandes reportagens: está na forma como aprendeu a enxergar o país e leva isso hoje para as redes sociais.

O escritor que existe dentro do JORNALISTA sempre esteve presente. Xico Sá nunca tratou a realidade brasileira como uma planilha de acontecimentos. Seus textos carregam personagens, contradições, afetos e conflitos de um país marcado por desigualdades profundas. Ele se tornou uma grande referência para mim porque, ao falar sobre fatos políticos, me ensina todos os dias que isso nunca foi sinônimo de abandono à humanidade dos indivíduos, sem cair na falsa neutralidade de quem observa injustiças como se fossem apenas parte da paisagem.

Nas redes sociais, sua presença ganhou uma nova dimensão. Em uma arena onde muitas vezes vence quem simplifica, agride ou distorce, Xico Sá mantém posts que exigem do leitor algo raro: atenção. Sua defesa da democracia, das minorias e dos direitos sociais nasce de uma compreensão histórica de que nenhuma sociedade avança quando transforma preconceito em opinião e autoritarismo em alternativa política. Ele usa a experiência de décadas de jornalismo para lembrar que o presente não pode ser separado das escolhas feitas no passado.

A contribuição de Xico Sá está justamente nesse ponto: ele não oferece apenas opinião sobre o Brasil; ele oferece uma interpretação muito maior do Brasil. Sua obra jornalística e literária mostra que a democracia também depende de quem conta as histórias de um país, de quais vozes são ouvidas e de quais memórias permanecem vivas. Em tempos políticos de disputa pela verdade, jornalistas como ele cumprem uma função essencial: impedir que o Brasil seja explicado apenas por aqueles que sempre tiveram o poder de narrá-lo. Obrigado, Xico Sá!

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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