É injusto que um único acesso à internet em três meses baste para classificar um idoso como conectado: isso não retrata a realidade e passa a mascarar um problema social
Não dá para consideramos um idoso “usuário de internet” apenas porque acessou a rede uma única vez em noventa dias. Se isso não for revisto, não estamos diante de uma fotografia fiel do país. Estamos diante de um retrato borrado. O risco das estatísticas complacentes é produzir uma sensação artificial de progresso, como se a inclusão digital fosse um botão que se aperta uma vez e permanecesse ligado para sempre. Não é. Inclusão significa autonomia, frequência, compreensão e pertencimento. O resto é maquiagem numérica.
É preciso mais cautela, e também mais estudo. Números otimistas têm o poder de anestesiar consciências. Se os indicadores dizem que quase todos estão conectados, diminui a urgência de investir em alfabetização digital, em acessibilidade, em equipamentos e em políticas públicas voltadas à população idosa. A consequência é cruel: quem mais precisa de ferramentas para acessar serviços, benefícios e informações continua dependente da boa vontade de filhos, netos ou vizinhos. Chamar isso de inclusão é confundir uma visita à internet com cidadania digital.
Também há um aspecto profundamente humano nessa discussão. Muitos idosos não desejam apenas aprender a usar um celular; desejam preservar a própria autonomia. Cada aplicativo compreendido representa um pouco mais de liberdade. Cada videochamada feita sem ajuda representa dignidade. Reduzir essa experiência transformadora ao simples registro de um acesso eventual é ignorar que envelhecer não significa abrir mão da independência, mas lutar diariamente para mantê-la em um mundo cada vez mais tecnológico.
Um país verdadeiramente comprometido com seus idosos não pode se contentar com estatísticas confortáveis. Precisa ter coragem de enxergar a realidade como ela é. Afinal, conectar alguém não é permitir que toque uma tela uma vez a cada noventa dias; é garantir que essa pessoa tenha condições de participar plenamente da vida contemporânea, exercer seus direitos, acessar serviços e manter sua autonomia. A diferença entre um número bonito e uma sociedade justa está justamente aí: na honestidade de medir a realidade para, enfim, transformá-la.
