Filho de peixe, roteiro de peixe

Corajoso com o microfone na mão, pequeno diante do juiz: Flávio Bolsonaro reedita a mesma política da bravata que terminou levando o pai para cadeia

Durante anos, Jair Bolsonaro transformou Alexandre de Moraes em um dos principais alvos de seus discursos. Chamou o ministro de tudo quanto é nome nos palanques, prometeu enfrentá-lo e vendeu a imagem de alguém disposto a ir até as últimas consequências. Mas a realidade tratou de desmontar essa narrativa: o mesmo Bolsonaro que inflamava a militância acabou convidando Alexandre de Moraes para ser seu vice. Vale lembrar esse episódio agora porque Flávio Bolsonaro parece decidido a seguir exatamente o mesmo roteiro do pai.

Assim como o pai, Flávio adota um discurso de enfrentamento absoluto sempre que está diante de um microfone. Ataca Alexandre de Moraes com adjetivos como “demônio”, fala em derrubar Moares, e vende ao seu eleitorado a imagem de alguém disposto a desafiar o ministro do STF. A experiência recente da política brasileira, com o próprio pai dele, porém, recomenda cautela diante desse tipo de performance. A história da família Bolsonaro demonstra que existe uma distância considerável entre a coragem exibida para a plateia e a postura adotada quando o embate deixa de ser retórico e passa a acontecer dentro das instituições. O pai atacou e terminou preso convidando Moraes para ser seu vice. O irmão fugiu para os Estados Unidos e por lá se juntou com outros covardes foragidos.

O paralelo é inevitável. Jair Bolsonaro e seu irmão Eduardo também transformaram, assim como ele, o confronto verbal com o Supremo em um ativo político. Prometem reações duras, elevam o tom contra ministros e alimentam uma narrativa de ruptura. Mas, quando Bolsonaro, por exemplo, precisou lidar diretamente com o sistema institucional, vieram os recuos, a “Declaração à Nação” após o 7 de Setembro de 2021, redigida com a ajuda de Michel Temer, o tom muito mais moderado em depoimentos e, sobretudo, a revelação de que o mesmo Alexandre de Moraes tratado como inimigo em público chegou a ser lembrado como possível companheiro de chapa. A retórica era de guerra; a prática, de um ratinho.

É justamente esse contraste que Flávio Bolsonaro parece reproduzir. A herança mais evidente não é ideológica, mas comportamental. O método consiste em incendiar a militância com frases de efeito enquanto a realidade impõe uma postura muito menos heroica do que a propaganda promete. E quem embala, se ferra e fica desamparado. Basta lembrar que Bolsonaro chamou de malucos, aqueles, realmente malucos, que quebraram tudo no oito de janeiro quando o bicho pegou. A política, nesse modelo, transforma coragem em espetáculo e prudência em segredo de bastidor.

No fim das contas, a liberdade de expressão garante a qualquer parlamentar o direito de criticar ministros, tribunais e decisões judiciais. O que ela não garante é que deixará de cobrar a mesma valentia do palanque, quando o cenário for para dentro do tribunal. Quem faz da valentia sua principal marca política precisa aceitar que será julgado menos pelo volume da voz e mais pela firmeza das atitudes. Afinal, a coragem que só aparece no palanque e desaparece diante da autoridade é apenas um personagem em busca de plateia. E a plateia boba, que embarca, muitas vezes morre, desamparada, antes que ele, na beira da praia.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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