A mentira elegante e devastadora da “ressignificação”

Descobri há tempo que dar novo nome à dor se torna apenas outra forma de não encará-la com honestidade. E a consequência pode ser devastadora.

Criaram um glamour estético na ideia de “ressignificar”. A palavra parece moderna, acolhedora, quase terapêutica por si só. Promete alívio sem confronto, transformação sem perda, sentido sem ruptura. Mas, no fundo, muitas vezes derrama um verniz sofisticado sobre aquilo que permanece intocado: a dor real, crua, irredutível. Trocar o nome de uma ferida não a cicatriza, apenas a torna mais apresentável ao espelho e aos outros.

O problema não está em buscar sentido para o que nos atravessa, mas em usar esse discurso como fuga. Quando tudo pode ser ressignificado, nada precisa ser verdadeiramente enfrentado. Cria-se então uma narrativa paralela, onde o sofrimento é domesticado à força, empurrado para uma zona simbólica confortável. É crueldade de coach. Crueldade, pois o que é empurrado não desaparece; retorna, muitas vezes mais distorcido, mais insistente, mais difícil de nomear. A realidade rejeitada cobra seu preço em silêncio.

Há, por outro lado, uma coragem menos palatável e muito mais transformadora: a de restaurar. Restaurar não é embelezar: é reconhecer o dano, admitir a perda, olhar para o que se quebrou sem a pressa de reconstruir uma versão mais bonita da história. É sustentar o incômodo de que certas coisas não têm conserto imediato. É aceitar que nem tudo pode, ou deve, ser reinterpretado para caber em uma narrativa edificante.

Talvez o movimento mais honesto seja abandonar a obrigação de dar sentido a tudo. Nem toda dor precisa ensinar, nem todo trauma precisa virar aprendizado exemplar. Há experiências que exigem apenas reconhecimento, elaboração e tempo. E é justamente quando se abandona a farsa da ressignificação que algo verdadeiro pode começar a se mover: aceitação. Não uma mentira para “ressignificar” a verdade, não como ilusão reconfortante, mas como vida que, enfim, deixa de ser negada e passa a ser aceita. A partir daí, aí sim, a vida segue e a restauração acontece.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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