A grande imprensa implodiu e o leitor ficou do lado de fora

A sucessão de acusações entre os principais veículos do país abre uma crise que vai muito além do caso Banco Master: ela revela o colapso da confiança, um dos pilares essenciais da democracia jornalística

A cobertura do caso Banco Master produziu uma das cenas mais constrangedoras da história recente do jornalismo brasileiro. Em poucos dias, revistas, jornais, emissoras de televisão e portais passaram a trocar acusações públicas sobre relações comerciais, publicidade, proximidade com empresários e possíveis conflitos de interesse. Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Metrópoles e Band passaram a ocupar, ao mesmo tempo, o papel de investigadores e investigados. O fato mais grave talvez nem seja descobrir quem tem razão, mas assistir às cúpulas de grandes empresas de comunicação exporem disputas e relações que, por décadas, permaneceram restritas aos seus gabinetes.

A imprensa livre não existe apenas para produzir notícias. Ela é um dos principais instrumentos de fiscalização do poder e de proteção da sociedade contra a opacidade dos interesses públicos e privados. Acadêmicos e jornalistas estudam e observam hoje os próprios se acabando entre si, disputando credibilidade por meio de denúncias mútuas. Para quem é apaixonado pelo Jornalismo e entende sua principal função: dói. Dói porque não é sobre interesse do leitor ou telespectador; é guerra corporativa. O cidadão deixa de saber em quem confiar justamente quando mais precisa de informação confiável e acaba não confiando em niguém.

Credibilidade é patrimônio institucional, não ativo financeiro. Contratos, interesses econômicos ou relações privadas contaminaram a percepção pública sobre o jornalismo. A crise já deixou de atingir apenas empresas específicas. Ela alcançou a própria autoridade moral da imprensa, construída durante décadas sobre a promessa de independência e de compromisso inegociável com o interesse público.

Se continuar assim, tendo a notícia como ferramenta de guerra entre os próprios veículos, e não os fatos que interessam à sociedade, quem perde não é este ou aquele jornal. Quem perde é a democracia, que depende de uma imprensa forte, independente e, sobretudo, digna da confiança daqueles em nome de quem afirma trabalhar.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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