Colunista foi um dos investigados no governo Bolsonaro de forma ilegal pela Abin. De todos os jornalistas da lista, Noblat foi praticamente o único que não se vendeu para o esquecimento
A história recente registrou que um dos episódios mais graves para a liberdade de imprensa após a redemocratização brasileira foi a utilização da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) para monitorar e investigar jornalistas durante o governo Jair Bolsonaro. O caso, conhecido como “Abin Paralela’, não era uma disputa de versões, de um embate político ou de uma crítica a reportagens. Tratava-se do uso de um órgão de inteligência do Estado contra profissionais cuja função é justamente fiscalizar o poder. O governo Bolsonaro transformou violentamente jornalistas em alvos da máquina pública. Alguns passaram a ser investigados e espionados, na prática, por um governo que deveria permanecer democrático, mas que terminou com a tentativa de um golpe de Estado.
O tempo passou, as manchetes mudaram e o país seguiu em frente. Mas é impressionante perceber como esse episódio parece ter sido empurrado para o esquecimento, inclusive por muitos dos jornalistas que figuravam entre os investigados. Talvez porque a rotina da profissão seja dura e as urgências se sucedam. Talvez porque a memória pública seja curta. Talvez com medo de perder uma cadeira na grande imprensa. Ainda assim, esquecer um precedente dessa gravidade significa abrir espaço para que ele volte a acontecer. Democracias não costumam desaparecer de uma vez; elas se enfraquecem quando seus alertas deixam de ser levados a sério. Mas tem um jornalista que não esqueceu: Ricardo Noblat.
Nesse cenário, Ricardo Noblat merece reconhecimento. Mais do que lembrar do episódio, ele passou a tratar a defesa do jornalismo e da democracia como temas permanentes, compreendendo que a agressão sofrida por jornalistas não dizia respeito apenas à categoria, mas ao direito de cada cidadão de viver em um país onde a imprensa possa trabalhar sem ser vigiada pelo Estado. Eu sou um deles. Acompanho diariamente Noblat, seja nas lives ou em sua coluna. E essa coluna aqui é um agradecimento. Um agradecimento por demonstrar até hoje que a liberdade de imprensa não pode depender da conveniência do momento nem da mudança dos governos. Ela precisa ser defendida todos os dias, sobretudo quando a indignação já deixou de render manchetes. Nos dias ruins, e também nos dias bons.
É triste constatar que essa consciência tenha encontrado tão poucos porta-vozes. Mas também é reconfortante saber que ainda existe quem se recuse a normalizar o inaceitável para manter seu nome numa coluna de um grande jornal. Enquanto houver jornalistas como você, Noblat, dispostos a lembrar que o Estado jamais pode usar seus órgãos de inteligência para intimidar quem o fiscaliza, haverá esperança. Porque a democracia não morre apenas quando censuram a imprensa; ela também adoece quando a imprensa esquece que um dia tentou ser censurada. Meu muito obrigado.
