As cinzas da inteligência

O fanatismo que incendeia laboratórios não derrota adversários políticos. Sabota o futuro, condena suas próprias vidas e transforma a ignorância em projeto terrorista de poder.

Foi um ato que ultrapassou a condição de simples crime contra o patrimônio. Colocar fogo em uma universidade é um ataque deliberado contra a inteligência coletiva, contra a memória científica e contra o direito das próximas gerações de viverem melhor do que a atual. Vinte anos de pesquisas não representam apenas arquivos e equipamentos; representam tempo humano que jamais será recuperado. Quando estudos sobre o câncer se transformam em cinzas, não desaparecem apenas dados. Desaparecem possibilidades de diagnóstico, tratamentos futuros e esperanças que pertenciam a pessoas que nunca participaram de qualquer disputa política.

O aspecto mais trágico desse tipo de fanatismo é sua absoluta incapacidade de compreender causa e consequência. Quem destrói um laboratório acredita ferir um inimigo ideológico, mas pode estar destruindo o conhecimento que um dia faria diferença na própria vida. O exame que faltará, o medicamento que demorará mais para existir, a descoberta que não chegará a tempo poderão atingir justamente quem hoje celebra a devastação. A ciência não distingue crenças, partidos ou bandeiras quando salva uma vida. A doença também não.

Existe uma pobreza moral inquietante em quem transforma o ódio em método de ação. O incêndio deixa de ser apenas destruição material para revelar uma lógica em que o ressentimento vale mais do que a realidade e a pulsão de aniquilar supera qualquer compromisso com o bem comum. Uma universidade é um patrimônio da sociedade, não de um grupo político. Atacá-la significa romper com a própria ideia de civilização, substituindo o debate pela devastação e a razão pela barbárie.

Não podemos agora recuar e tratar esse comportamento como simples radicalismo ou excesso retórico. Trata-se de uma agressão direta ao interesse público e ao futuro coletivo, que exige responsabilização rigorosa nos termos da lei e rejeição inequívoca por parte das instituições e da sociedade. Quem incendeia um centro de pesquisa não está apenas queimando um edifício; está queimando oportunidades de cura, anos de trabalho de milhares de pessoas e fragmentos do futuro de todos nós. Há crimes que terminam quando o fogo se apaga. Este continua queimando, silenciosamente, na vida de quem um dia precisará da ciência que ajudou a destruir.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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