A Verdade não se dobra

O delírio da ‘machosfera’ contemporânea e a insistência em deturpar direitos para ‘reinventar verdades’

Escutei hoje a seguinte frase: “A reinvenção da verdade não é uma demolição.” Nem li o resto, porque a primeira parte já está completamente errada. Digo isso, poque há, nela, um desconforto quase palpável, ainda que embalada por uma aparente sofisticação intelectual. A ideia de que a verdade pode ser moldada, reinterpretada ou até reinventada conforme o desejo ou a conveniência não revela profundidade: revela, antes, uma confusão essencial entre percepção e realidade. A verdade não é um produto da vontade humana. Ela é atemporal e global. Ela não se curva à subjetividade, nem se adapta ao espírito do tempo. Ela simplesmente é.

Essa tentativa desastrosa e irresponsável de tentar uma “reinvenção da verdade” revela apenas sobre quem tenta impor sua verdade o mundo. Um clássico mecanismo de defesa: ao distorcer o real, o indivíduo protege-se de enfrentar aquilo que lhe é insuportável, no caso, o emponderamento feminino. Freud já apontava que o ego mobiliza estratégias para evitar o desprazer e reconfigurar a verdade é uma das mais sofisticadas delas. No entanto, o inconsciente não se deixa enganar. Aquilo que é recalcado retorna, insistente, revelando que a verdade pode até ser negada, mas jamais anulada.

Desde Aristóteles, entende-se que dizer do que é que é, e do que não é que não é, é o fundamento da verdade. Não há espaço, nesse princípio, para versões paralelas ou convenientes. Quando se admite múltiplas “verdades”, na prática, abre-se mão do próprio conceito de verdade, substituindo-o por narrativas, opiniões ou construções subjetivas. Isso pode até ser útil no campo das interpretações, mas não no domínio do que é factual, essencial e permanente.

Insistir que a verdade pode ser reinventada é, no fundo, uma forma elegante de fugir dela. Mas o real não desaparece porque alguém decidiu redesenhá-lo. Ele permanece, silencioso e firme, aguardando o momento em que será, inevitavelmente, reconhecido. A verdade não envelhece, não se adapta e não pede permissão. Ela atravessa o tempo com uma integridade que desafia gerações, e talvez seja justamente isso que mais incomoda: sua absoluta indiferença às nossas tentativas de controle. Ninguém vai reescrever a verdade. E a verdade é que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos. Qualquer reconstrução de verdade fora disso é uma grande mentira para te enganar e manter um sistema de controle que mata diariamente mulheres nos quatro cantos do país. Nenhum passo atrás.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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