O esquema de diárias que dobra salários: a ‘matemática safada’ do topo do poder
Os números são frios e, talvez por isso mesmo, tão eloquentes. O governador interino do Rio de Janeiro, Ricardo Couto de Castro, acumulou R$ 192,3 mil em diárias ao longo de apenas sete meses de 2025, valor que, em determinados períodos, ultrapassou o próprio salário mensal estimado em cerca de R$ 45 mil. O dado não é apenas um detalhe contábil, é a vidraça quebrada de um sistema que permite, dentro da legalidade, ganhos paralelos que distorcem completamente a lógica do serviço público. E que sai do nosso bolso.
A engrenagem funciona com precisão quase matemática: viagens oficiais, muitas delas internacionais, autorizam o pagamento de diárias que podem chegar a cerca de R$ 4,6 mil por dia no exterior. Em meses como junho de 2025, os valores atingiram R$ 49,2 mil, mais do que o salário base, impulsionados por deslocamentos como idas a Brasília e Madri. Em outubro, sete dias na França custaram mais de R$ 31 mil aos cofres públicos. A pergunta que se impõe não é se é legal, porque, ao que tudo indica, é, mas se é moralmente defensável.
O ponto crítico está justamente aí: a ausência de limites mensais para essas diárias, mesmo com tetos por viagem, cria uma brecha institucionalizada onde o acúmulo se torna regra, não exceção. O resultado é um modelo em que o servidor público, ao exercer funções legítimas, pode simultaneamente inflar sua remuneração de forma significativa, sem necessariamente oferecer uma contrapartida proporcional em transparência ou impacto direto à população.
A legalidade, por si só, não pode ser o único parâmetro de justiça. Existe uma expectativa legítima de que quem ocupa cargos de poder compreenda o peso prático de cada centavo gasto. Estou falando aqui de confiança pública sendo colocada na balança. E essa, diferente das diárias, não deveria admitir nenhum tipo de acréscimo automático.
