O vazio no poder do Estado do Rio de Janeiro

A exceção virou regra e a crise deixa de ser escândalo para se tornar estrutura

O Rio de Janeiro não enfrenta apenas uma sequência de governadores corruptos, enfrenta algo mais profundo, mais enraizado e mais inquietante: o desvio como método. O problema deixou de ser individual há muito tempo. Não se trata mais de nomes, partidos ou mandatos específicos, mas de um padrão que se repete com precisão quase ritualística. A cada novo escândalo, o choque inicial dá lugar a um cansaço coletivo, como se a indignação tivesse prazo de validade. E talvez esse seja o primeiro sintoma de um sistema adoecido: quando o absurdo deixa de causar espanto.

Há uma engrenagem que opera silenciosamente, sustentando esse ciclo. Ela não depende apenas de quem é eleito à cadeira, como os últimos políticos corruptos que a ocuparam, mas de uma rede mais ampla de interesses, cumplicidades e conveniências. É perverso o que fazem com a população: quem entra no jogo precisa se adaptar a ele para sobreviver. A sensação é que para governar hoje o Estado do Rio de Janeiro, a estrutura não apenas permite a corrupção, ela a exige como condição de permanência. O resultado é bizarro.

Mas há também algo mais íntimo e desconfortável nesse cenário. Uma espécie de pacto silencioso entre governantes e governados, onde a descrença substitui a cobrança e o cinismo ocupa o lugar da esperança. Quando a população passa a esperar o pior, o pior encontra terreno fértil para prosperar. A repetição dos escândalos não apenas desgasta a confiança nas instituições, ela corrói a própria ideia de que algo diferente é possível. E assim, o ciclo se retroalimenta: maus governos geram desesperança, e a desesperança abre espaço para novos maus governos.

O que resta, então, não é apenas a crítica, mas a recusa. Recusa em aceitar que esse seja o destino inevitável de um estado inteiro. Recusa em tratar como normal aquilo que é, na essência, profundamente inaceitável. O Rio de Janeiro não está à espera de um salvador, está à espera de ruptura. Uma ruptura que não virá de dentro desse mesmo sistema que se protege e se reproduz, mas de uma mudança mais radical na forma de encarar o poder, a responsabilidade e, sobretudo, o limite do que se está disposto a tolerar.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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2 thoughts on “O vazio no poder do Estado do Rio de Janeiro

  1. Aqui no Rio, nós temos os verdadeiros governantes,os nacortraficantes.Eles estão em TDS as Instituições Estaduais .
    Como disse Marcinho VP,” minha família toda trabalha na Câmara Municipal”,puxa aí em QQ lugar q tem ele falando .Já prenderam o filho dele? A polícia parou .Pq? Ordem de quem? Ele segue distante com a tornozeleira eletrônica quebrada? Ninguém fala nada …TDS ex governadores misturados com facções criminosas.Então conclui q são eles que nos governam.Dobrevive.os num verdadeiro inferno .Muito triste.Amo minha cidade,mas ….Acabou!

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