A República dos aplicativos e o abandono dos idosos

A tecnologia precisa dar uma ‘paradinha’ e pensar nos mais velhos. Não podemos excluir justamente aqueles que mais ajudaram a construir a sociedade

Há algo profundamente errado em uma sociedade que celebra a modernização enquanto empurra milhões de idosos para a invisibilidade. Transformar direitos básicos em aplicativos, senhas, QR Codes e portais digitais pode parecer eficiência para quem domina a tecnologia, mas se torna uma barreira cruel para quem envelheceu em um mundo diferente. Quando uma pessoa mais idosa precisa implorar ajuda para marcar uma consulta médica, acessar um benefício ou pagar uma conta, não estamos diante de progresso. Estamos diante de uma nova forma de exclusão social.

O discurso da inovação virou, em muitos casos, uma cortina de fumaça para esconder a retirada silenciosa do atendimento humano. Bancos fecham agências, empresas eliminam centrais presenciais e órgãos públicos transferem responsabilidades para telas de celular. O resultado é perverso: o cidadão que passou décadas trabalhando, pagando impostos e ajudando a sustentar o Estado passa a ser tratado como um problema operacional. Entra a conveniência corporativa no lugar da cidadania.

Uma democracia madura não mede seu sucesso pela velocidade dos seus aplicativos, mas pela capacidade de garantir direitos a todos. Quando o acesso aos serviços depende da alfabetização digital, da posse de um smartphone moderno ou da ajuda de familiares, o Estado falha em sua função mais elementar: incluir. A dependência forçada de filhos e netos não representa autonomia; representa a transferência da responsabilidade pública para a esfera privada, aprofundando desigualdades e ampliando a vulnerabilidade dos mais velhos.

Tecnologia que exclui não é avanço, é retrocesso disfarçado de modernidade. Uma nação que abandona seus idosos em nome da eficiência está revelando uma crise moral muito maior do que qualquer atraso tecnológico. O verdadeiro desenvolvimento acontece quando a inovação amplia direitos e fortalece a dignidade humana. Tudo o que vier depois disso é apenas comodidade para alguns e abandono para muitos.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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