O teatro da renúncia

O grito indignado virou estratégia para tentar anestesiar a inteligência coletiva. Mas, o que o povo quer, é mais que renúncia: é CADEIA para vagabundos

Existe uma encenação que se repete com uma previsibilidade ofensiva à inteligência pública. Basta surgir uma suspeita grave envolvendo algum político para que ele apareça diante das câmeras inflamado, teatral, batendo no peito e lançando a frase calculada: “Se isso for verdade, eu renuncio ao mandato.” A fala vem carregada de falsa coragem, como se estivesse oferecendo um sacrifício monumental ao país. Mas o detalhe que eles fingem esquecer é simples: quem comete crime não faz favor nenhum ao perder mandato. Isso não é gesto de honra. É consequência. É obrigação legal. Se dá de forma automática pela lei. Não existe heroísmo em aceitar aquilo que a própria Justiça pode impor.

O mais perturbador é perceber como essa performance emocional tenta sequestrar o debate racional. O objetivo não é esclarecer fatos, apresentar provas ou colaborar com investigações. O objetivo é criar impacto psicológico, inverter posições e transformar suspeitos em personagens injustiçados. O político deixa de falar como alguém que precisa explicações e passa a atuar como vítima de perseguição política. É uma técnica velha: elevar o tom de voz para reduzir o espaço da reflexão. Quanto mais teatralidade, menos profundidade. Quanto mais grito, menos resposta concreta. A política vira palco de melodrama barato enquanto a sociedade continua esperando aquilo que realmente importa: investigação séria e responsabilização.

Muitos desses personagens parecem acreditar que uma frase de efeito tem mais força do que inquéritos, provas, perícias e decisões judiciais. Apostam numa população cansada, emocionalmente exaurida e acostumada a ver escândalos terminarem em pizza. Por isso transformam a própria possibilidade de punição em instrumento de marketing. Tentam vender dignidade enquanto negociam sobrevivência política. Tentam parecer firmes justamente no momento em que mais deveriam estar silenciosamente colaborando com a Justiça.

O país não precisa mais de atores revoltados diante das câmeras. O país precisa de investigações independentes, de transparência e de cadeia para quem usa poder público como ferramenta de privilégio pessoal. A sociedade já aprendeu a reconhecer esse teatro ensaiado da falsa indignação. Renúncia não limpa consciência, não apaga crime e não devolve dinheiro desviado. O que o povo quer não é performance. O que o povo quer é responsabilização. E, se houver culpa comprovada, prisão para esses vagabundos.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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