Mário entra numa fria ao cair na mentira

Deputado negou elo com Daniel Vorcaro, recuou após revelações e expôs a banalização da mentira como método político

A política brasileira é sórdida e sempre conviveu com versões convenientes dos fatos, mas o episódio envolvendo o deputado ‘Mario está numa Frias’ me fex refletir algo mais profundo: a naturalização da mentira como estratégia de sobrevivência pública. Depois de negar categoricamente qualquer relação financeira entre o documentário “Dark Horse” e o empresário Daniel Vorcaro, o parlamentar precisou recuar diante da avalanche de informações que vieram à tona. Em menos de 24 horas, a narrativa mudou. O que antes era tratado como inexistente virou uma “diferença de interpretação jurídica”. A velha mágica contemporânea: quando a realidade aparece, muda-se o significado das palavras.

É um mecanismo tão clássico quanto safado de racionalização. Não importa mais a coerência dos fatos, mas a preservação da própria imagem perante a bolha ideológica. A verdade passa a ser moldável conforme a conveniência do momento. É por isso que muitos desses personagens conseguem mentir com a mesma naturalidade de quem toma um copo d’água: porque, internamente, a contradição já deixou de produzir culpa. O importante não é sustentar uma verdade objetiva, mas manter viva a fantasia política construída para o público fiel.0

Mario está numa fria agora. Pesa em suas costas a partir de hoje a erosão deliberada da confiança pública. Quando lideranças emitem versões mentirosas sucessivamente e são desmascarados, criam um ambiente em que tudo parece relativo, nebuloso e interpretável. O resultado é perverso: a população perde a capacidade de distinguir a verdade da mentira. Não se trata apenas de uma crise ética individual, mas de um método político consolidado internacionalmente por movimentos autoritários. Primeiro negam. Depois relativizam. Em seguida atacam quem revelou. E, por fim, tentam transformar o próprio escândalo em perseguição ideológica.

O mais revelador é que, paralelamente à tentativa de minimizar o caso envolvendo Vorcaro e o documentário bolsonarista, setores da extrema direita ainda tentaram espalhar a narrativa de que um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também teria recebido dinheiro do banqueiro. A história ganhou tração nas redes como se fosse verdade consumada, mas acabou oficialmente desmentida pela produção do filme e pelo diretor Oliver Stone. Ou seja: além da contradição pública no caso “Dark Horse”, ainda houve a fabricação paralela de uma fake news para tentar produzir uma falsa equivalência política. Quando a mentira vira método, qualquer ficção serve, desde que ajude a confundir a realidade. Safadeza de alto nível, embora burra, pois não conseguiram esconder, justamente, a safadeza.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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