Ofício para o Hexa e a falência política

Com salário de R$ 46 mil, Deputado Hélio Lopes (PL) troca fiscalização da República por escalação da Seleção

Parece piada, mas é Brasil. Um parlamentar usou papel timbrado da Câmara dos Deputados para pedir convocação de jogador para Copa do Mundo. Não é só pitoresco. É um retrato institucional do país transformado em mesa de bar com verba pública. Enquanto hospitais colapsam, cidades afundam, escolas mendigam estrutura e o Congresso deveria discutir temas estruturais, surge o ofício patriótico em defesa da vaga de Neymar. O brasileiro já desconfiava que Brasília vivia num eterno recreio; agora recebeu confirmação protocolada e assinada.

Pela lógica apresentada, o gabinete virou uma espécie de central de atendimento esportivo da nação. “Milhões de brasileiros pediram”, diz o documento. É fascinante como certos políticos descobriram uma modalidade inédita de populismo: terceirizar responsabilidade para uma entidade abstrata chamada “o povo”. O “povo” pede convocação, o “povo” pede CPI, o “povo” pede lacração no Instagram. No fundo, o que existe é uma necessidade infantil de permanecer permanentemente conectado ao entretenimento para evitar o enfrentamento da realidade: sua insignificância política para o país. A política virou um grande condomínio emocional onde o deputado tenta desesperadamente ser visto como “gente como a gente”, ainda que para isso precise transformar mandato em mesa-redonda esportiva.

É validação afetiva instantânea. Não basta legislar; é preciso viralizar. O parlamentar já não quer representar o eleitorado, quer performar para ele. E nada produz mais catarse popular do que futebol e idolatria. Neymar deixa de ser jogador para virar ‘pertencimento emocional’ na cabeça de deputado maluco. O ofício, portanto, não é sobre esporte. É sobre carência política. É um parlamentar dizendo: “olhem para mim, estou participando da conversa do momento”. O problema é que a Câmara não é um grupo de WhatsApp de torcedores em surto depois do terceiro chope.

Na boa, gente… É degradação institucional; aquele momento em que as estruturas do Estado começam a perder solenidade, foco e função. O Brasil conseguiu tropicalizar isso com um toque de stand-up involuntário. O mais assustador não é o ofício em si, é o fato de que parte do público já nem se espanta mais. O absurdo deixou de causar crise e passou a virar meme. E talvez essa seja a tragédia mais séria: quando a população começa a rir da inutilidade de um deputado inútil, porque já desistiu de esperar qualquer coisa útil.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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