Assédio e cultura do estupro virou bloco de corrida de militares emocionalmente analfabetos. Gritos, correria e misoginia: Orla do Rio virou palco para um espetáculo de Madrugas e Jurandis deprimentes
O vídeo é perturbador: Madrugas e Jurandis, homens adultos, correndo e gritando para as mulheres de biquíni na praia, berrando “menininhas de Ipanema” como se estivessem participando de uma gincana universitária organizada pelo departamento do Dops. A cena até tenta se vender como “zoeira carioca”, mas o que ela entrega mesmo é um surto coletivo de infantilização misturado com uma necessidade desesperada de validação masculina. O mais assustador não é o grito. É o coro. Porque quando vários homens se sentem confortáveis em constranger mulheres em público, o problema deixou de ser individual faz tempo.
O episódio parece um encontro clandestino entre o ego ferido e a ausência completa de noção. Os milicos vão correndo, e não enxergam mulheres tomando sol, caminhando na praia; enxergam um palco onde acreditam ter direito de performar poder, deboche e invasão. A praia, que deveria ser um espaço de liberdade, vira um corredor enquanto eles passam. E é aí que mora o horror: a cultura do estupro não começa no crime extremo. Ela começa justamente na normalização do desconforto feminino como entretenimento coletivo. No “relaxa, é brincadeira”. No “elas gostam”. No “não pode falar mais nada”. Pode, sim. Só não pode transformar mulher em atração turística para macho carente de aplauso.
O que mais me chamou atenção olhando o ‘nipe’ dos Jurandis e Madrugas, foi a ausência de um adulto funcional naquela multidão. Não apareceu um Seu Madruga da dignidade pra dizer “menos, muchachos”. Não surgiu um Jurandir minimamente civilizado pra lembrar que educação não é censura. Nada. Só um festival de homens agindo como adolescentes que descobriram testosterona ontem e civilidade nunca. O nível do espetáculo era deprimente. A famosa “malandragem carioca” vira apenas covardia barulhenta quando depende do constrangimento feminino para existir.
O mais cruel é que depois essa mesma turma se pergunta por que tantas mulheres vivem em estado permanente de alerta. Porque até no momento mais banal, caminhando num calçadão, ou deitada numa areia, usando um biquíni, existindo, aparece uma cambada querendo transformar seu corpo em piada pública. E aí tentam romantizar chamando de “Garota de Ipanema”, como se citar um clássico da música brasileira limpasse a sujeira moral da cena. Não limpa. Pelo contrário. Só revela o quanto esse militarismo babaca consegue pegar poesia, sensualidade e liberdade feminina… e transformar tudo num desfile grotesco de misoginia recreativa.
