Imaginem a política tendo como regra um condomínio de interesses privados administrado com o dinheiro público e a cara de pau coletiva
É Poético, no pior sentido da palavra, a possibilidade de uma aliança entre a velha rachadinha e a elegante mesadinha. Uma tira dos assessores, a outra entra pela porta dos fundos do poder vestida de “apoio institucional”, “articulação” ou “diálogo republicano”. Juntas, seriam como uma dupla sertaneja do submundo administrativo: uma canta desafinando no gabinete, a outra arrecada no camarote empresarial. E o povo? Ah, o povo compra ingresso, paga estacionamento, financia o palco e ainda é chamado de ingrato quando reclama do show.
A rachadinha é o retrato do coronelismo reciclado em escritório refrigerado. É o sujeito que transforma gabinete em caixa eletrônico familiar, uma espécie de pirâmide emocional onde o funcionário trabalha para o Estado, mas parte do salário precisa demonstrar amor e gratidão ao chefe político. Já a mesadinha tem outro charme: ela gosta de gravata, reunião reservada e café sem açúcar. Não tira dinheiro do assessor; ela cria relações tão íntimas entre poder e interesse privado que, em certos momentos, fica difícil saber onde termina o governo e começa o balcão de negócios. Uma age como trombadinha de orçamento. A outra prefere a sofisticação dos vinhos caros e dos contratos discretos.
Agora imagine essas duas práticas governando juntas. Seria a fusão entre o pequeno abuso cotidiano e o grande pacto de proteção mútua. A rachadinha garantiria a fidelidade interna do curral político, enquanto a mesadinha cuidaria da blindagem externa, patrocinando silêncios estratégicos, indignações seletivas e patriotismos de ocasião. O resultado seria um país onde escândalo vira rotina, CPI vira série de streaming e discurso anticorrupção funciona apenas como fantasia de carnaval: usada uma vez por ano diante das câmeras antes de voltar mofada para o armário. A população assistiria a tudo como quem vê incêndio em prédio alugado: sabendo que vai pagar a conta no final.
E talvez o mais irônico seja perceber que esse tipo de estrutura não se sustenta apenas pelo dinheiro, mas pela encenação moral. Porque o sistema precisa que alguém grite “família”, “Deus”, “liberdade” ou “o povo em primeiro lugar” enquanto o caixa circula por baixo da mesa como garçom em churrascaria de luxo. O humor da tragédia brasileira está justamente aí: os mesmos que juram combater privilégios frequentemente tratam o Estado como um clube VIP hereditário. E o cidadão, esse personagem abandonado do roteiro nacional, continua trabalhando seis dias por semana para financiar uma república onde alguns fazem política e outros apenas dividem o saque.
