Chega ao fim o sequestro da camisa do Brasil?

Brasileiro resgata o verde e amarelo do cativeiro político e devolve a camisa da Seleção ao seu verdadeiro dono: toda a nação

Nos últimos anos, a camisa da Seleção Brasileira deixou de ser apenas um uniforme esportivo para se transformar em marcador de identidade política. Esse foi o verdadeiro sequestro: não o de um pedaço de tecido, mas o de um símbolo nacional. Um dos maiores estragos que o bolsonarismo deixou para o Brasil foi a divisão da camisa do seu próprio país. Se valendo de uma polarização, diabolicamente passaram a sugerir pertencimento a apenas uma parcela da sociedade, rompendo um dos pactos mais elementares da democracia: o de que existem referências que antecedem e sobrevivem às disputas pelo poder.

Hoje foi um dia de recusa desse monopólio satânico. Homens e mulheres vestidos de verde e amarelo, fazendo o “L”, ou não, afirmaram que a identidade nacional não pode ser privatizada por nenhuma corrente extremista. O gesto possui uma dimensão que ultrapassa a conjuntura eleitoral. Ele devolve à esfera pública um patrimônio que jamais deveria ter saído dela. Símbolos nacionais não existem para distinguir vencedores de vencidos; existem para lembrar que, antes de qualquer divergência, há uma comunidade política chamada Brasil.

Toda experiência autoritária procura reduzir a pluralidade. Ela transforma a diversidade em suspeita e tenta convencer a sociedade de que amar a pátria exige fidelidade a um único discurso. Democracias caminham na direção oposta: ampliam o direito de pertencimento. A camisa da Seleção jamais foi da extrema direita. Ela sempre foi brasileira. O problema nunca esteve nas suas cores, mas na tentativa de transformá-las em senha de aceitação ou exclusão política.

É bom ver que está terminando o sequestro da camisa do Brasil, embora estragos dessa magnitude deixem cicatrizes que vão demorar a desaparecer. As cores do Brasil não podem representar uma corrente ideológica tenha derrotado ou perdido para outra. A bandeira do Brasil precisa respirar fora do cárcere da exclusividade política. É importante que todo cidadão recupere o direito de vestir as próprias cores sem que lhe seja exigida uma profissão de fé partidária. É preciso libertar do cárcere bolsonarista as cores do pertencimento nacional. Ela grita socorro, todos os dias, para retornar a circular em liberdade.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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