De wi-fi em comunidades a cinema em Hollywood, passando por eventos religiosos, marketing, construção civil e contratos milionários, talvez o Brasil esteja diante da empresária que só não é mais versátil que os CNPJs abertos
Existe gente que passa a vida inteira tentando se especializar em uma única área. Estuda, faz pós-graduação, acumula experiência e ainda assim encontra dificuldades para conquistar espaço. Já Karina Ferreira da Gama parece ter encontrado um caminho muito mais eficiente: dominar todas as áreas ao mesmo tempo. A julgar pelas reportagens publicadas nos últimos meses, seu currículo atravessa tecnologia, cultura, eventos religiosos, campanhas políticas, produção audiovisual, assessoria empresarial e até construção civil. Enquanto universidades insistem na ideia antiquada de formar especialistas, Karina parece ter criado a pós-graduação definitiva em “resolver qualquer negócio que apareça pela frente”.
O caso mais impressionante é o contrato de R$ 108 milhões para instalação de pontos de wi-fi em comunidades da cidade de São Paulo, hoje alvo de investigações da Polícia Civil e do Ministério Público. Segundo as apurações divulgadas pela imprensa, o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, assumiu a missão tecnológica mesmo sem histórico conhecido no setor de telecomunicações. O feito é quase inspirador: em um país onde empresas de tecnologia disputam licitações munidas de engenheiros, certificações e décadas de experiência, surge uma organização capaz de migrar com desenvoltura do universo de projetos sociais para a infraestrutura digital urbana. Talvez a próxima etapa seja lançar satélites.
Mas limitar Karina ao wi-fi seria injusto. Paralelamente, ela aparece ligada à produção de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro roteirizada por Mario Frias. Reportagens apontam que empresas associadas ao grupo não possuíam histórico relevante no mercado cinematográfico, o que torna tudo ainda mais extraordinário. Afinal, enquanto produtores independentes passam anos tentando captar recursos e viabilizar um longa-metragem, existe quem consiga navegar entre contratos públicos milionários e produções internacionais praticamente na mesma tacada. É uma demonstração de elasticidade empresarial que desafia as leis da física e, em alguns casos, desperta a curiosidade dos investigadores.
Talvez a grande injustiça seja tratar tudo isso como mera coincidência. O correto seria reconhecer que estamos diante de uma revolução administrativa. Num Brasil onde uma empresa costuma nascer para vender pão, transportar carga ou produzir filmes, Karina parece defender um conceito mais ousado: a empresa quântica, capaz de existir simultaneamente em diversos mercados, contratos e projetos. A Polícia Civil investiga, o Ministério Público apura, a Ancine analisa e a imprensa tenta acompanhar. Enquanto isso, o cidadão comum observa perplexo e talvez se pergunte se perdeu tempo demais escolhendo apenas uma profissão.
