A República Federativa Neymar Jr.

No país onde convocação virou ato de fé e crítica esportiva passou a ser tratada como heresia, assim como na política, o futebol abandonou o campo para inaugurar sua própria seita emocional

Existe algo de fascinante no brasileiro contemporâneo: ele consegue transformar uma panturrilha lesionada em debate ideológico nacional. Neymar já não é apenas jogador. Virou entidade metafísica. Uma espécie de santo pop cercado por defensores que reagem a qualquer questionamento como quem protege relíquias sagradas em plena Idade Média. Não importa se o músculo rompeu, se o tornozelo gritou ou se o desempenho caiu. A simples dúvida sobre sua convocação desperta um exército de Neymarzetes fiéis e armadas com hashtags, cortes de live e indignação cenográfica.

O mais curioso é observar como parte do jornalismo esportivo decidiu abandonar a inconveniência da apuração para abraçar o conforto do fã-clube premium. A crítica, que deveria ser exercício básico da profissão, passou a ser vista como traição afetiva. Há comentaristas que parecem não analisar futebol, mas administrar um casamento tóxico com o ídolo. E todo relacionamento assim funciona igual: quanto mais evidências aparecem, maior fica a necessidade de negar a realidade para preservar a fantasia.

Casagrande, com sua tradicional vocação para entrar na sala chutando a porta, acabou verbalizando algo que muita gente percebe há tempos: existe hoje uma curiosa categoria híbrida no entretenimento esportivo. Nem jornalistas plenamente independentes, nem influenciadores assumidamente promocionais. São criaturas que vivem num limbo elegante, onde o crachá divide espaço com o algoritmo e onde desagradar o astro parece mais perigoso do que desinformar o público. A verdade, afinal, perdeu espaço para a conveniência emocional.

Na boa, gente… A lesão de Neymar, na minha opinião, é o menos interessante dessa história toda. O que realmente impressiona é a necessidade coletiva de transformar qualquer crítica em pecado mortal. Brasileiro até aceita derrota em Copa. O que ele não suporta é encarar a possibilidade de que alguns dos seus heróis talvez sejam menos sobrenaturais do que o marketing prometeu.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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