No país onde convocação virou ato de fé e crítica esportiva passou a ser tratada como heresia, assim como na política, o futebol abandonou o campo para inaugurar sua própria seita emocional
Existe algo de fascinante no brasileiro contemporâneo: ele consegue transformar uma panturrilha lesionada em debate ideológico nacional. Neymar já não é apenas jogador. Virou entidade metafísica. Uma espécie de santo pop cercado por defensores que reagem a qualquer questionamento como quem protege relíquias sagradas em plena Idade Média. Não importa se o músculo rompeu, se o tornozelo gritou ou se o desempenho caiu. A simples dúvida sobre sua convocação desperta um exército de Neymarzetes fiéis e armadas com hashtags, cortes de live e indignação cenográfica.
O mais curioso é observar como parte do jornalismo esportivo decidiu abandonar a inconveniência da apuração para abraçar o conforto do fã-clube premium. A crítica, que deveria ser exercício básico da profissão, passou a ser vista como traição afetiva. Há comentaristas que parecem não analisar futebol, mas administrar um casamento tóxico com o ídolo. E todo relacionamento assim funciona igual: quanto mais evidências aparecem, maior fica a necessidade de negar a realidade para preservar a fantasia.
Casagrande, com sua tradicional vocação para entrar na sala chutando a porta, acabou verbalizando algo que muita gente percebe há tempos: existe hoje uma curiosa categoria híbrida no entretenimento esportivo. Nem jornalistas plenamente independentes, nem influenciadores assumidamente promocionais. São criaturas que vivem num limbo elegante, onde o crachá divide espaço com o algoritmo e onde desagradar o astro parece mais perigoso do que desinformar o público. A verdade, afinal, perdeu espaço para a conveniência emocional.
Na boa, gente… A lesão de Neymar, na minha opinião, é o menos interessante dessa história toda. O que realmente impressiona é a necessidade coletiva de transformar qualquer crítica em pecado mortal. Brasileiro até aceita derrota em Copa. O que ele não suporta é encarar a possibilidade de que alguns dos seus heróis talvez sejam menos sobrenaturais do que o marketing prometeu.
