Com a descarga acionada, merdas tensionaram instituições e contaminaram estruturas democráticas
O poder raramente se apresenta de forma explícita; ele se infiltra. Tipo merda escorrendo pelo ralo. É menos um ato e mais um fluxo: silencioso, persistente, moldando estruturas por dentro. Vou trazer essa metáfora incômoda, mas elucidativa, para que você possa imaginar esse processo como um sistema hidráulico: quando grandes volumes de dinheiro, ou merdas, passam a circular com o objetivo de ampliar influência, eles não apenas percorrem tubulações, eles pressionam os tubos e os canos. E, como em qualquer sistema, o problema não está apenas no fluxo, mas no que acontece quando a merda, ao escorrer pela tubulação, encontra pontos de obstrução ou fragilidade institucional.
A primeira tubulação foi o cano político: caixas de campanha, gabinetes, os corredores legislativos, os espaços onde decisões públicas deveriam ser guiadas pelo interesse coletivo. Quando esse montante de merda se acumula ali, cria-se uma espécie de entupimento funcional: agendas deixam de ser públicas para se tornarem privadas, prioridades se deslocam, e o processo democrático começa a perder sua transparência. Acontece a captura: quando agentes com recursos desproporcionais passam a influenciar decisões que deveriam ser equilibradas por representação e debate.
O segundo cano atingido foi o Judiciário, onde o cenário se torna ainda mais sensível. A legitimidade das decisões judiciais depende, essencialmente, da confiança pública na imparcialidade. Quando há percepção de que fluxos de influência podem alcançar essas instâncias, o dano não é apenas institucional. É uma grande merda social. A “tubulação” da Justiça, quando comprometida, não apenas deixa de funcionar adequadamente: ela passa a contaminar todo o sistema ao redor, gerando descrédito e insegurança jurídica com seu mal cheiro, elementos corrosivos para qualquer democracia.
Já na tubulação da comunicação, o impacto é difuso e, talvez por isso, não menos profundo. Veículos que deveriam operar como filtros para tratamento do esgoto podem, sob pressão ou influência da merda pressionada, tornar-se condutores desse mesma merda. E quando isso se expande para além desses três pilares, política, Justiça e mídia, o que se observa é o transbordamento. A merda final dessa descarga não permanece restrita às estruturas de poder: ela deságua no rio social, na percepção pública, na formação de opinião. É nesse momento que o sistema, já saturado, devolve à população não apenas informação, mas as consequências de um circuito comprometido, onde o que deveria ser transparente se torna turvo, e o que deveria servir ao coletivo passa a servir a interesses opacos. Ou melhor, a merdas fedorentas.
