O ‘Namastê’ de vitrine

É preciso ficar atento quando o discurso da paz interior serve apenas como figurino emocional para a internet, mas não cabe no corpo e na alma

Existe um tipo de personagem que se tornou extremamente lucrativo nas redes sociais: a pessoa “namastê”. Ela fala manso, publica frases sobre energia, posta vídeos de meditação, vende equilíbrio, leveza e evolução espiritual. Tudo parece muito bonito até o primeiro conflito real. Porque é justamente na frustração, na crítica e na contrariedade que a máscara cai. E, não raro, aquilo que parecia serenidade revela apenas uma sofisticada encenação emocional. Gente que fala de cura, mas alimenta ressentimentos antigos como troféus íntimos. Pessoas que pregam desapego enquanto vivem acorrentadas a mágoas de dez, quinze anos atrás.

A contradição não está em sentir raiva, isso é humano. O problema começa quando alguém transforma a espiritualidade em marketing pessoal, mas não suporta viver os princípios que vende. Quem realmente busca evolução entende que aceitação não significa concordar com tudo, mas sim não permitir que o passado vire uma prisão permanente. A pessoa muito espiritualizada tem dentro de si duas grandes virtudes: aceitação e perdão sem cobrar perdão. Outra virtude também é essencial: não temos o controle sobre nada. Tentar controlar qualquer coisa que não depende de nós arrastando mágoas é tiro pro alto. Há uma diferença brutal entre lembrar uma dor e construir a própria identidade em cima dela. Algumas dessas figuras digitais parecem precisar eternamente do papel de feridas para manter a narrativa de pureza moral diante do público.

A internet ajudou a criar um mercado de personalidades emocionalmente editadas. Muitas delas mudam apenas de forma performática apenas porque acham que repaginar a skin e personalidade vai cobrir algum vazio. Não vai. E quanto mais performática é a paz transmitida, mais atenção ela costuma receber. O público acaba consumindo uma estética da consciência, não uma consciência de fato. Espiritualidade verdadeira quase nunca é barulhenta. Ela não precisa provar iluminação em vídeo de 40 segundos nem transformar equilíbrio em branding. Muitas vezes, quem mais se vende como evoluído é justamente quem menos suporta ser confrontado, perdoar, ceder ou rever a própria arrogância emocional.

Por isso, talvez o maior ato de lucidez hoje seja observar menos os discursos e mais os comportamentos. Gente realmente tranquila não transforma rancor em combustível vital. Gente verdadeiramente madura não usa a linguagem da paz para esconder vaidade, controle ou ressentimento. A coerência continua sendo a forma mais honesta de espiritualidade. Palavras podem ser treinadas. Posturas podem ser ensaiadas. Mas o verdadeiro exemplo sempre escapa nos detalhes, principalmente quando o palco acende as luzes. Ou quando apaga.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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