… até agora não deu um pio sobre as ‘surubas’ organizadas pelo cunhado…
Existe um fenômeno curioso: algumas pessoas desenvolvem uma paixão irresistível pela janela do vizinho. Sabem quantos copos ele lavou, quantas vezes brigou, como educa os filhos, o que posta, o que veste e até que castigo mereceria receber. Enquanto isso, a própria família permanece fechada para inspeção, como se espelhos fossem objetos perigosíssimos. É uma versão doméstica daquele velho impulso humano de fiscalizar o mundo para não precisar encarar a si mesmo.
Foi exatamente essa sensação que ficou quando uma apresentadora resolveu subir ao púlpito das redes sociais para distribuir lições sobre uma influenciadora, chegando a defender que ela deveria perder a guarda dos filhos. É um tipo de julgamento que exige uma autoridade moral raríssima. Afinal, antes de apontar o dedo para a maternidade de alguém, talvez fosse prudente gastar um pouco dessa energia olhando para os próprios corredores da família, onde assuntos públicos e amplamente conhecidos já renderam manchetes, debates e constrangimentos suficientes para ocupar qualquer consciência minimamente ocupada.
A indignação costuma ser mais confortável quando mora no endereço dos outros. É importante lembrar que pessoas projetam no próximo aquilo que não se quer enfrentar em âmbito familiar: é um mecanismo antigo quanto a própria humanidade. E a política talvez resumisse tudo numa frase simples: quem transforma a vida alheia em tribunal precisa aceitar que o público também examine a coerência do juiz. Moral não é cargo vitalício; é patrimônio que se prova pela consistência.
No fim das contas, continua valendo uma regra que atravessa gerações com uma elegância que nenhuma rede social conseguiu derrubar: antes de abrir a cortina para fiscalizar o quintal do vizinho, vale conferir se o telhado da própria casa ou empresa não está pedindo reforma. Porque, quando o canal já acumula problemas suficientes para ocupar a página com a própria família, fazer plantão na janela dos outros deixa de parecer coragem e se transforma numa forma muito barulhenta de fugir do espelho.
