Flávio Bolsonaro e os segredos que não couberam no túmulo

Ao prometer guardar os detalhes da própria fuga até a morte, senador acabou entregando à entrevista aquilo que mais pretendia preservar: suas contradições.

Foi muito contraditório a postura de Flávio Bolsonaro. Um senador da República, que disputou a Presidência e reivindicou representar milhões de brasileiros, deixa o próprio país e tenta apresentar sua saída como um gesto de autonomia e estratégia. A questão não é simplesmente atravessar uma fronteira, mas o significado político de abandonar o cenário nacional enquanto se pretende continuar interferindo em seus destinos. Quem deseja exercer liderança precisa compreender que coragem política também se demonstra enfrentando presencialmente as consequências dos próprios atos, não transformando a distância em palco de uma suposta resistência.

A entrevista ao The New York Times terminou produzindo um efeito bastante diferente daquele que aparentemente se pretendia. Flávio afirmou que organizou tudo sozinho e que levaria para o túmulo os detalhes de como chegou aos Estados Unidos. A declaração, em vez de transmitir autoridade, abriu ainda mais espaço para o constrangimento. O jornal apresentou informações sobre a participação de um funcionário da Casa Branca na organização do voo, contrariando a versão de independência absoluta. A tentativa de posar como protagonista de uma operação pessoal acabou submetida a perguntas elementares sobre quem ajudou, como aconteceu e por que tanto mistério. O resultado foi uma entrevista que, nas redes e no debate público, virou motivo de ironia.

Mais constrangedora ainda é a tentativa de sustentar suspeitas sobre o resultado eleitoral sem apresentar provas capazes de fundamentá-las. Flávio voltou a questionar a vitória de Lula, falou em impossibilidade matemática e admitiu, ao mesmo tempo, que considera pequenas as chances de reverter o resultado. É uma combinação politicamente conveniente: alimenta a desconfiança entre os próprios apoiadores, mas não assume a responsabilidade de demonstrar aquilo que insinua. A democracia não pode ficar refém de derrotados que tratam a própria inconformidade como evidência de fraude. Perder uma eleição não é prova de perseguição, assim como desconfiar de um resultado não equivale a demonstrar sua irregularidade.

Há também outra contradição: Flávio pretende falar como liderança nacional, articula-se com aliados e projeta um futuro político brasileiro, mas faz isso a partir de Miami, enquanto transforma a própria ausência em narrativa heroica. A política exige presença, responsabilidade e disposição para prestar contas. Não se pode reivindicar autoridade para conduzir um país e, simultaneamente, tratar a distância como proteção contra perguntas inconvenientes. A retórica da perseguição pode funcionar como combustível para uma militância, mas não substitui explicações públicas nem apaga as contradições de uma decisão.

No fundo, a entrevista expôs um problema maior do que a própria viagem: a dificuldade de distinguir protagonismo de autopreservação. Flávio parece ter apostado que o jornal americano lhe ofereceria uma vitrine internacional para reforçar sua imagem de perseguido e desafiante do sistema. Acabou tendo sua própria narrativa confrontada com informações que não controlava. Existe uma diferença enorme entre ser recebido por um jornal internacional e sair de uma entrevista fortalecido. A notoriedade não é sinônimo de autoridade, o discurso de perseguição não é prova de inocência e a fuga não se transforma em coragem apenas porque seu protagonista decide rebatizá-la. A política não é um reality show em que basta sustentar um personagem até o próximo episódio. O país merece representantes que enfrentem suas responsabilidades, não personagens que confundam distância com grandeza.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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