Trump mirou no Brasil, mas foi o Brasil que influenciou os EUA

Enquanto setores dos Estados Unidos tentavam influenciar os rumos da democracia brasileira, foi o Brasil que acabou oferecendo aos EUA uma lição de soberania popular, inspirando uma reação democrática que ultrapassou suas fronteiras

Muita gente ainda não percebe, mas a democracia não é administrada por gabinetes, interesses estratégicos ou centros de poder internacionais. Na minha avaliação, essa pretensão sofreu um revés emblemático no Brasil com espelhamento mundial. Enquanto setores dos Estados Unidos buscavam exercer influência sobre os rumos da política brasileira, encontraram uma sociedade que respondeu nas urnas, reafirmando que a soberania nacional não se negocia nem se terceiriza. Todos deveriam saber: nenhuma engrenagem institucional é superior à decisão coletiva de um povo consciente de seu próprio destino. E foi o que aconteceu ontem nos EUA.

A ironia histórica é ainda mais contundente. Aqueles que pretendiam influenciar o Brasil com o boné “Make America great again” acabaram influenciados pelos brasileiros. As eleições brasileiras ultrapassaram o debate doméstico e projetaram uma mensagem de resistência democrática que repercutiu internacionalmente. O exemplo brasileiro mostrou que a defesa das regras do jogo democrático depende menos da força das instituições e muito mais da disposição da sociedade para protegê-las. Quando um povo se levanta em defesa da democracia, ele produz efeitos que atravessam fronteiras.

O erro recorrente das potências como os EUA sempre foi confundir poder com autoridade moral. Poder econômico, militar ou diplomático pode pressionar governos, mas não substitui a legitimidade construída pelo voto. A verdadeira autoridade nasce da participação popular. Instituições existem para servir à soberania do povo, nunca para submetê-la aos interesses de atores externos. Quem ignora esse princípio acaba descobrindo, tarde demais, que nenhuma influência estrangeira é capaz de derrotar uma cidadania mobilizada.

Essa é a lição que muitos insistem em não aprender. Ontem, foi mais uma oportunidade de aprendizado para Donald Trump. Impérios acumulam poder, governos mudam, instituições se reorganizam, mas a história continua sendo escrita pelos povos quando decidem assumir o protagonismo do próprio destino. Somos gigantes: enquanto alguns acreditavam estar ensinando o Brasil a defender sua democracia, foi o Brasil que ofereceu ao mundo uma demonstração de que nenhuma potência é maior do que a soberania popular. O povo americano ontem respondeu. Por lá, também aprenderam que não são as instituições que conduzem a história; são os povos que lhes conferem ou retiram legitimidade. E Donald Trump acaba de perder a dele.

Com isso, chega ao fim a esperança de “salvar o Brasil” por meio de uma resposta de Donald Trump à mensagem enviada por Thomas Costa na caixa de mensagens diretas do Instagram.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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