O autoritarismo de quem acredita ser dono do corpo do outro

Não existe poder legítimo quando uma autoridade cogita substituir a vontade de uma mulher pela própria vontade sobre o destino do seu corpo.

Tem frases que não podem ser tratadas como simples tropeços de linguagem porque elas revelam uma forma de enxergar o poder. Cogitar que uma mulher seja submetida a uma laqueadura sem o seu consentimento, “sem ela saber”, significa admitir que existe alguém autorizado a decidir por ela aquilo que pertence exclusivamente a ela. Esse é o instante em que a autoridade deixa de servir ao cidadão e passa a acreditar que o cidadão existe para servir à autoridade. Toda forma de arbítrio fascista nasce exatamente dessa inversão.

O mais inquietante é perceber que essa ideia tenha partido de outra mulher. Não porque mulheres sejam incapazes de reproduzir práticas autoritárias, mas justamente porque demonstra que o autoritarismo não tem sexo. Ele apenas muda de rosto. Quando uma mulher admite, ainda que por um segundo, retirar de outra o direito sobre sua própria fertilidade, ela deixa de reconhecer uma semelhante como sujeito de direitos e passa a enxergá-la como alguém que pode ser administrado, corrigido e controlado, castrado como um animal. Essa é a lógica que alimenta toda forma de dominação.

O corpo feminino nunca pode ser objeto da conveniência de quem governa. Quem ocupa um cargo público administra orçamento, políticas e serviços; não administra consciências, nem úteros. A história é implacável com sociedades que permitiram ao poder escolher quem deveria ou não exercer plenamente sua liberdade. Sempre houve uma justificativa apresentada como racional. Sempre houve quem dissesse que era “para o bem” de alguém. E sempre terminou com direitos esmagados em nome de uma suposta superioridade moral.

Por isso, não basta pedir desculpas. O pedido de desculpas repara a ofensa política, mas não elimina a gravidade da ideia que foi exteriorizada. Democracias não morrem apenas quando tanques ocupam as ruas. Elas também são corroídas quando autoridades começam a acreditar que podem substituir a vontade livre dos indivíduos por aquilo que consideram mais conveniente. O corpo de uma mulher não admite tutela, não aceita procuração e não se submete à vontade de governantes. Quem naturaliza esse pensamento, ainda que por um instante, flerta com uma concepção de poder incompatível com a liberdade e com a própria dignidade humana.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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