Ricardo Salles troca argumentos por insultos ao chamar Lula de “filho da puta”

A estratégia é conhecida: radicalizar o discurso, provocar a reação institucional e depois transformar as consequências em combustível para o discurso da perseguição e vitimização

Tem gente que acredita que falar ideias é suficiente para enfrentar adversários. Outros preferem economizar argumentos e investir naquilo que rende mais engajamento nas redes: o insulto. Foi exatamente essa escolha que Ricardo Salles fez ao chamar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “filho da puta” durante um discurso diante de uma multidão. O episódio viralizou não porque tenha acrescentado algo ao debate público, mas porque escancarou a substituição definitiva da política pelo espetáculo da ofensa.

Assisti o vídeo e não me pareceu um deslize verbal ou de um destempero momentâneo, mas um padrão que já se tornou familiar ao eleitor brasileiro. Primeiro vem a frase cuidadosamente calculada para incendiar as redes sociais. Depois, a repercussão previsível. Em seguida, surgem as reações jurídicas e institucionais igualmente previsíveis. E, finalmente, chega o último ato da peça: o vídeo emocionado denunciando uma suposta perseguição, como se as consequências fossem obra de censores, e não resultado direto das próprias palavras. É um roteiro tão repetido que perdeu até o elemento surpresa.

A degradação do discurso público produz um efeito perverso. Quanto mais o insulto ocupa o centro da cena, menos espaço resta para discutir aquilo que realmente interessa ao país. O debate desses caras em 2026 não gira em torno de propostas, indicadores, economia ou segurança, mas pela intensidade da ofensa do dia. A política virou entretenimento de conflito permanente, onde o aplauso depende da capacidade de humilhar o adversário, e não da competência para convencer a sociedade.

Ricardo Salles, que já carregava o peso simbólico da frase sobre “passar a boiada” durante sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente, parece insistir na crença de que radicalizar o vocabulário produz liderança. Pode até produzir manchetes, curtidas e vídeos virais. Mas também costuma produzir responsabilização. E, se ela vier, não será perseguição. Será apenas o funcionamento normal de um Estado em que a liberdade de expressão garante o direito de falar, mas nunca assegurou o direito de ficar imune às consequências do que se escolhe dizer em público.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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