A repetição de dinheiro vivo ocultado em torno de Sóstenes: primeiro, veio em sacolas de lixo, agora eus assessores utilizavam livros falsos para esconder cédulas. Há um padrão que dispensa qualquer sentença judicial
Gente, na boa… Algumas coisas falam mais alto do que qualquer discurso. Dinheiro escondido em sacolas de lixo já havia produzido uma imagem devastadora em torno do Sóstenes. Agora, a descoberta de dinheiro ocultado por pessoas do seu entorno em compartimentos que imitavam livros aprofunda uma degradação que não é apenas jurídica, mas moral. O livro sempre representou conhecimento, transparência e civilização. Transformá-lo em esconderijo para dinheiro vivo é quase uma metáfora cruel de um país onde a aparência tenta substituir a verdade. Mais grave ainda é o fato de a Polícia Federal investigar se a justificativa apresentada para explicar a primeira apreensão foi construída artificialmente.
A corrupção raramente começa no dinheiro. Ela começa na convicção íntima de que é possível manipular a realidade, controlar a percepção pública e fabricar versões suficientemente convincentes para sobreviver ao escrutínio. Esse mecanismo psicológico produz um perigoso fenômeno: quem se acostuma a esconder valores passa também a esconder intenções, responsabilidades e, por fim, a própria consciência. O problema nunca é apenas o dinheiro encontrado. É a naturalidade com que alguns parecem acreditar que tudo pode ser explicado depois, desde que a história seja suficientemente conveniente.
Uma democracia não morre apenas quando faltam eleições livres. Ela também se enfraquece quando representantes públicos passam a conviver com episódios sucessivos de dinheiro oculto, explicações contraditórias e investigações que se acumulam. Cada novo episódio amplia a sensação de que existem dois países: um em que o cidadão comum presta contas de cada centavo e outro em que grandes quantias aparecem escondidas em circunstâncias incompatíveis com a transparência que o serviço público exige. Essa percepção corrói a confiança coletiva muito antes de qualquer sentença.
É indispensável afirmar um princípio que deveria ser óbvio: toda pessoa tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência. Mas esse direito não elimina o dever político de prestar contas de forma clara, imediata e convincente. Quem exerce mandato popular administra, antes de qualquer verba, a confiança da sociedade. Quando essa confiança passa a dividir espaço com imagens de dinheiro escondido, compartimentos disfarçados como livros e versões sob investigação, o maior patrimônio perdido já não é o financeiro. É o capital moral da República, cuja reconstrução custa infinitamente mais do que qualquer quantia encontrada em sacolas de lixo ou em livros falsos.
