O retorno dos condenados

Quando a confiança pública é traída, oito anos de afastamento bastam?

Me causa ainda perplexidade, e não sei se em grande parte da sociedade brasileira também, mas um cidadão comum que comete determinados crimes pode carregar as consequências de seus atos por décadas, enquanto agentes políticos condenados por corrupção, desvio de recursos públicos ou outras condutas graves contra a administração podem, após o cumprimento das penas e o término do período de inelegibilidade, voltar a disputar eleições e ocupar cargos de poder. A pergunta que permanece é simples: se a função pública exige confiança, o que acontece quando essa confiança é destruída pelo próprio ocupante do cargo?

A administração pública não é um patrimônio privado. O dinheiro desviado de cofres públicos deixa de financiar hospitais, escolas, segurança e políticas sociais. Quando um agente político utiliza o mandato para benefício próprio, não prejudica apenas um governo ou um adversário; prejudica milhões de cidadãos que dependem dos serviços financiados pelos impostos. Em qualquer profissão, a quebra grave de confiança costuma gerar consequências permanentes. Por que, então, a política deveria ser uma exceção?

Defensores do sistema atual argumentam que a democracia deve preservar a possibilidade de reintegração e que ninguém deve sofrer uma punição eterna. Trata-se de um argumento relevante em um Estado de Direito. Ainda assim, a sociedade tem o direito de questionar se crimes praticados justamente por quem recebeu a missão de representar o interesse coletivo não deveriam receber um tratamento diferenciado. Afinal, o dano produzido por um agente público que trai seu mandato ultrapassa a esfera individual e atinge a própria credibilidade das instituições.

Talvez o debate que o Brasil precise enfrentar não seja apenas sobre prisão ou inelegibilidade temporária, mas sobre o significado da confiança pública. Quem demonstra, por decisão própria, que não está disposto a proteger o patrimônio coletivo deveria ter o direito de voltar a administrá-lo? A resposta pertence à sociedade e ao Congresso Nacional. Mas a pergunta continua gritando em minha cabeça: quando alguém trai a confiança do povo, oito anos de afastamento são uma punição suficiente ou apenas uma pausa antes do retorno?

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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