Senadores trocam proteção de crianças por moralismo conservador

Uma menina que engravida após uma violência não precisa de senadores nojentos usando seu corpo como palanque moral

Em uma votação que durou apenas um minuto e quarenta e dois segundos, o Senado decidiu suspender uma resolução que reconhecia algo elementar: a gravidez na infância representa risco físico, psicológico e social para meninas submetidas a uma situação extrema. A rapidez da decisão diz muito. Quando um tema tão grave é tratado sem debate aprofundado, a mensagem transmitida é que a vida das crianças importa menos do que a necessidade de produzir um gesto político para determinados grupos de pressão. Fiquei com muito nojo assistindo ao resultado.

O mais impressionante é que muitos dos mesmos parlamentares que se apresentam como defensores da infância desaparecem quando o assunto é combater a violência sexual, fortalecer conselhos tutelares, ampliar a proteção social ou enfrentar a impunidade dos agressores. A criança interessa enquanto símbolo. Quando surge a necessidade de protegê-la na prática, ela deixa de ser prioridade. O discurso é pró-infância; a consequência é contra a criança real.

Toda sociedade que transforma sofrimento em bandeira política corre o risco de perder sua humanidade. Uma menina que engravida após uma violência não precisa de senadores usando seu corpo como palanque moral. Precisa de acolhimento, proteção e assistência. O Estado existe para reduzir danos e proteger vulneráveis, não para impor castigos em nome de convicções ideológicas que serão suportadas por quem não participou da decisão.

O que ocorreu no Senado não foi uma demonstração de compromisso com a vida. Foi uma demonstração de poder sobre vidas que possuem pouca capacidade de defesa. A política, quando abandona a realidade e passa a legislar para agradar plateias morais, deixa de ser instrumento de proteção coletiva e se transforma em mecanismo de crueldade institucional. E não há nada de conservador em sacrificar crianças para preservar discursos. Há apenas a velha tradição de exigir que os mais vulneráveis paguem a conta das convicções dos mais poderosos.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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